PÁGINAS

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Flor de Cinza


Prossegue inascitura
na flor exausta
a árvore
recôndita árvore que
um dia abrisse
a flor de cinza

Também nos
jardins suspensos de
babilônia alguma
nascerá a planta
de que é flor
a flor de cinza

A flor de cinza é
quando o tempo
nega o acontecimento
do fruto; é sobre uma
praia aberta, o mar
nunca mais vindo

A flor de cinza está
para uma flor
como um sonho morto
está para
um sonho extinto

E só há um instante x
em que a
flor de cinza
é viva flor, porque
antes
não é flor nenhuma
depois
é flor de cinza.


José Chagas

sábado, 4 de agosto de 2012

À MODA DOS POETAS MEDIEVAIS

Cantiga de Amor com Refrão

A dona que eu sempre amei
Por mim não tem paixão.
Assim, eu sempre sofrerei
Como sofre meu coração.
Triste, triste, será meu fim,
E Deus não tem pena de mim.

Pela vida passo penado
Pelos danos do coração,
De modo que sofro calado
E assim perco a razão.
Vivo, pois, sofrendo assim,
E Deus não tem pena de mim.

Quando desenganado estiver
Por não alcançar tal galardão
Mesmo assim essa mulher
Não sairá de meu coração.
Virão dor e tortura, enfim,
E Deus não tem pena de mim.

Prof. Jayme Bueno

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Poesia de Nydia Bonetti

  Nydia Bonetti, poeta de sensibilidade única. 




                                                              Asas aflitas



fase silenciosa
antes do amanhecer

(como demora o sol
quando se espera por ele)

asas aflitas o pressentem

(sou do bando dos pássaros
acordadores do sol)

desde sempre assim
(antiga sina)

eu espero por ele
ele espera por mim

- e a noite perpetua



rebeladas penas

é tanto sol
que uma pena da minha asa preguiçosa se soltou

voou leve lá fora

do meu ninho pude ver o vôo silencioso das penas
que flutuam

outras tantas se rebelam agora - mal posso contê-las
ansiosas asas se contorcem

e o vento e o sol e o vento - fui... ganhei o céu



nenhuns

singelos ou loucos vamos
fazendo poesia
pois que somos todos
uns ou outros
ambos talvez
nenhuns   



   (Nydia Bonetti)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Eu não creio em vida após a arte

1.





2. Suspensão


As palavras que estão
no ar
que escolheram

a altitude aguda
para fugir das meras
junções de letras

Do alto selecionam

O ponto certo de despencar
não é cego

Levam em conta o vento
o tempo que indisposto para
de vagar

Como um suicida
que calcula a altura

não pensa, já é:
eterna suspensão

depois de certo ponto
não há mais como
                                                 não
errar





3. Algumas Pessoas 


algumas pessoas 
são
indesculpavelmente egoístas, excessivamente 
mesquinhas..

estranhas 
até o último fio de cabelo,
confusas 
e cheias até a última gota de alma.

transbordam,  solidão,
amor,
ou 
indiferença....

eu... bom, não faz  diferença alguma,
o que transborda ou não de mim,

sou melhor poeta que ser humano...

fato velho...

existo melhor em poesia,
realidade
me cansa, me castra e estraga....

... verso velho.

tenho diálogos profundos, 
com o meu silencio,

tenho diálogos profundos,
com tudo 
que há de mais raso em mim...

sou  vazia de tudo,
muito
cheia de mim...

indesculpavelmente,
poeta,
excessivamente humana.

sou melhor poeta que...

... não há de fazer diferença alguma.


4. Pérolas


das coisas breves, o peso de pés atados à pedra
que tínhamos aqueles olhos de ir ao fundo
existir entre mergulhos, querer pérolas

e como sangrássemos sem ver, permanecíamos
eu ancorada ao seu silêncio
vestida de distâncias e maresia

das coisas belas, o gozo da palavra
a morte anunciada naquele estranho dialeto
de corpos e poemas impossíveis:

eu quero morrer de amor, ele dizia
seu verso atravessado em minha garganta




1- O titulo da postagem é um verso da Daniela Delias.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Aelo



I.

Voa sobre a terra firme
para inspirar
a imobilidade.

Dança a pura transgressão:
um pássaro do espanto.

Venera a paisagem afogada
de onde foge para a

liberdade.

Amanhã, talvez
a sombria
indecisão do voo
o pouco alimento

- restará a fome.

Mas, hoje, o sol
pesa como um corpo
deita seu calor
sobre o ouro.

II.

Outro, que voa: o amor,
(imaterial) peso do mundo.

Hoje, sobre mim, amor,
o peso da matéria
do mundo.

(suspensa e atônita)

A humanidade de um anjo
a angeologia de um homem.

Síntese impossível:
homemulheranjo
e o pássaro do assombro.

III.

Vigoroso pacto
de mãos que tecem
em asas

curvas
e fêmures da palavra.

O bico
do seio.

O osso
fratura o silêncio
com a música

de ave do espanto.

IV.

Canta com a rouquidão da voz
inventada nas cordas de um grito:

a harpia

leva o desejo de som
enquanto o gozo da semente

sobrevoa in
certezas

- o aelo da perplexidade
é um desejo aéreo de brotar

da terra

Valsa sobre a esperança.



“O peso do mundo é o amor”, Allen Ginsberg, em Canção.



Mais da poesia de
Roberta Tostes Daniel em seu blog "Sede em frente ao mar".

sexta-feira, 20 de julho de 2012

era preciso saber escuros

era preciso saber escuros


trago  madrugada nos olhos
a  marca d’escuro na fala

ao arrepio dos lumes
pelas tantas mortalhas dos dias
[redentoras ofertas em luzes obscuras

oferto-vos a mão fraterna das noites
gestos silentes teatro de velas

coreografia dos signos
confraria das danças seus cios
[ao corte do pêndulo uma clave de sol

convido-os aos mergulhos profundos
liame de luzes revelam peixes

em distância de voos
raro equilíbrio o grão e o brilho
[sabe o albatroz das flores dos mares

entrego-vos bocados de sol às noites
nuas de luas echarpe eclipses

pesadas folhas de céu
nuvens encarnadas por lápides
[epitáfio em aço punhal cor d’olivas

recolho-me junto às folhagens e humos
conhecemos o sabor da terra 





Mais do poeta Paulo de Carvalho

terça-feira, 17 de julho de 2012

POEMA DE CRISTIANE RODRIGUES

PRECE À ÁRVORE DO DRAGOEIRO
Para Raquel Illescas Bueno

eu pedi aquela flor
eu pedi eu pedi
aquela flor!

como quem dá comida a pássaros
a árvore desprendeu-se dela
e ma ofertou

deu-me a flor como quem faz poesia sem querer:
um movimento de alma trepidou de leve seu tronco
e desgalhou lirismo sobre as visitantes

sorri de volta e passei
como antes tantos outros milhares pousados no minuto de sua sombra

PRECE À ÁRVORE DO DRAGOEIRO

Poema de Cristiane Rodrigues PRECE À ÁRVORE DO DRAGOEIRO Para Raquel Illescas Bueno eu pedi aquela flor eu pedi eu pedi aquela flor! como quem dá comida a pássaros a árvore desprendeu-se dela e ma ofertou deu-me a flor como quem faz poesia sem querer: um movimento de alma trepidou de leve seu tronco e desgalhou lirismo sobre as visitantes sorri de volta e passei como antes tantos outros milhares pousados no minuto de sua sombra

sábado, 14 de julho de 2012

AS 4 ESTAÇÕES



"As 4 Estações de Vivaldi"
Arte: José Isabelino Martins Coelho




AS 4 ESTAÇÕES


1.


Na tarde de abril,
gotas brincam na vidraça
com ar infantil.


2.


Um frio cristalino.
O vento geme nas frinchas
o som de um violino.


3.


Sorri para mim
a brisa da primavera.
Flores no jardim.


4.


Vibra uma cigarra
ao sol quente do cerrado
cordas de guitarra.




Jayme Bueno








Mais sobre o trabalho do Prof. Jayme Bueno em seu blog

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Fragmento de uma Prosa Íntima (Ao poeta Marco Lucchesi)




...
em noites como esta
sem diálogo


eu me encerrava
em minhas próprias matas


                       nas brenhas


das
minhas próprias Índias
e Bornéus


e dava-me à ilusão
de ser uma ave empoleirada
numa fronde
em terra de silêncios


                        decretados


e conforme a
lua se movia
minha plumagem refletia
mil cores


Em noites de desterro
também compreendo
a solidão
dos tuaregues


Daí meus desertos
que
no
entanto
sempre imploram
por verdura


 Fragmento de uma Prosa Íntima (Ao poeta Marco Lucchesi), de Assis de Mello, é um dos poemas  do livro


Assis de Mello
NA BORDA DA ILHA
poemas


Mais do poeta Assis de Mello em  COISAS DO CHICO