PÁGINAS

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mane, Tecel, Fares


Nosso banquete não sacia.
Comi o tempo inutilmente
e inutilmente é a única
palavra do epitáfio.

Mais pesada do que a terra
é a espessa pátina de tantos
desejos e outros venenos
que aqui jazem para sempre.

Sobre o peito, sobre nada
se entrecruzam meus dedos
nus e quebrados por sonhos
cheios de anéis.


[Ruy Espinheira Filho]

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Três poemas de Miguel Sanches Neto

Postagem elaborada pelo  Prof. Jayme Bueno
                                               (dê um click)


Em suas palavras:

“Poemas do amigo, ex-aluno, famoso crítico literário, grande romancista, excelente cronista. Como poeta é pouco conhecido. Porém, dos melhores.”




Ligação

(Miguel Sanches Neto)


Súbito me lembro de um antigo telefone.
Seu número irrompe em minha memória
e não sei de quem é, nem quando nem onde,
sei apenas que é um endereço que dói.

Disco sem esperança estes dígitos antigos
e então ouço chamar numa casa no tempo
à qual me prendo pelo cordão do umbigo
que não pôde ser cortado a contento.

Através de um fio imaterial me religo
às ruínas de uma infância só mito.
Do outro lado, alguém atende o telefone

e a voz que me chega por este conduto
é a da criança que tem o meu nome,
é a que perdi quando me tornei adulto.

(NETO, Miguel Sanches. Venho de um país obscuro, 2000, p.35)






Revendo uma foto antiga

(Miguel Sanches Neto)


Nesta foto do tempo de criança
o que mais me encanta
não é nossa alegria de infantes
mas a réstia de luz de uma manhã
brilhando no chão da varanda.

Ninguém apaga este sol
que nos chega da infância.

(NETO, Miguel Sanches. Venho de um país obscuro, 2000, p.53)






Balada do inquilino
(Miguel Sanches Neto)

Esta vida, não se iluda,
É uma casa alugada.
Haverá um dia em que
Não poderemos pagá-la
E seremos despejados.

Antes, outros perderão
O direito de habitá-la.
Aquele que vive no quarto
Com medo do desfecho
E quem, corajosamente,
Armou sua cama na sala
- todos irão do mesmo jeito.

Este senhorio é implacável.
Um dia não poderemos pagá-lo
E então nos expulsará deste berço
E passaremos a noite ao léu
- fantasma que nada tem de seu,
corpo, roupas ou endereço.

Um dia nos livraremos do aluguel.

(NETO, Miguel Sanches. Venho de um país obscuro, 2000, p.65)

sábado, 1 de setembro de 2012

Se


Poema de Antônio Moura

                                    
Se tua mãe não houvesse te levado ao colo
àquele momento, e teus pequenos passos

inocentes tivessem tomado outro rumo,
pequeno barco desastrado que ao mar se

perde ao perder a orientação dos astros e
fosse de encontro ao rochedo, digo, ao

móvel de cedro no canto da sala, derrubando
um vaso e este pequeno detalhe pudesse ter

desencadeado toda uma trama de eventos,
outra cadeia de acontecimentos que um após

o outro fossem entretecendo teu destino
para um outro roteiro, outra viagem que

em nenhum instante cruzasse meu caminho,
que, paralelo ao teu, seguia sob o céu sozinho.

Se tua mãe não houvesse te levado ao colo
àquele dia, este dia, eu e tu, acaso, existiria?



Antônio Moura nasceu em 1963 em Belém do Pará. Publicou os livros "Dez" (1996), "Hong Kong" (1999), "Rio Silêncio" (2004), "A Sombra da Ausência" (2009).


Leitura do poema "Se":


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Poemas de Jorge Santos





(As Gardénias nuas das Varandas)


Supondo que era vassalo dilecto,
Das Galerias da rua dos botequins,
Espalhei p’lo céu, bem lá no alto,
Em reclamos mediáticos e pasquins

Feios, simples e práticos querubins      
Sem talento, muitos já com defeito,
Mas o efeito foi oposto e não serviu os fins
Supostos; delas ser, poet’eleito;

Tomei a dor como revestimento,
Sem dar conta q’não mereciam tanto,
(Tais montras impáveis de manequins)

Hoje moro inda mais alto q’no monte
Pr’ás ver d’ponto mais longe e distante,
(Galdérias pintadas nuas en'varandins).




Apesar d’as janelas estarem abertas de par em par,
Todo o ruído lá fora se diluiu, sumido no ar…
Uma criança que chorava breve, o cochichar das velhas
Sobre vidas que não as suas, a indefinição das ruas

Num refrão constante, com todos os sons e notas
Que chegavam aos meus ouvidos, como um respirar
De pautas musicais, escritas nos vitrais abertos,
Lembravam-me místicas visões e novas versões de credos,

Que o não eram, não deparava com magos nas vielas
Nem fadas, nem gnomos nesse mundo de mil celas,
Apenas janelas de imitação em magros corredores de cal,
Mas onde todos os sons soavam para mim de forma original,

Eles, como eu, não durámos para sempre,
Não escolhemos o vento que nos soprava
No ouvido o respirar do universo, como se fosse
Algo que se ouvisse (um pensamento, uma frase…)

Sussurro agora do vazio que tenho no fundo do coração,
Os sonhos que outros já sonharam nesta mesma mansão,
Apenas as surdas janelas continuam ainda abertas,
Mas as velhas da rua não passam , nem consigo mais ouvi-las…








Aqui estou, sossegado, escondido,
Longe da vista e dos mistérios
Do existir, de tudo, do mundo.
Aqui estou, sem me fazer notar muito

Nos meus gestos duplicados.
Supondo ter sido tudo dito,
De quando enquanto fecho os olhos
E é num sonho branco que admito

Coabitar sozinho com a eternidade.
Neste inexplicável casulo,
Quase um Confessionário de padre,
Num sossego nulo…

 (O resto do monólogo... não irias entende-lo
Nem te servirei eu de consolo ou conselho)
Afinal nada de novo acontece neste mundo velho,
Eu continuo oculto, morando frente ao espelho.





Dê um click:  Jorge Santos   




sábado, 25 de agosto de 2012

QUATRO POEMAS DE CRIS DE SOUZA



A criatura em perigo

muda de cor
a oração
como um reles
camaleão.

Monstruosa madrugada

dou voltas pela casa
casa envolta em sono

mas que acorda
um monstro 
 mais que a corda
em meu pescoço
  

Latim de longa data

feito um romance
que ficasse em aberto            
e perto do peito
desperto

feito um romance
que ficasse em aperto           
e parte do peito
deserto

por ser lento por dentro:
sem  temer desde cedo?

por se lido por dentro:
sem temer o desfecho?
Haicai acordado

no correr da insônia
sonâmbula é a sombra
                  dos meus dedos
 

Encontre mais da poesia de Cris AQUI e ALI


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A bela poesia de Dade Amorim

Tempo sem tempo

Preparamos penumbra de floresta
aves de incenso em pátina de espaço
limita-nos um teto de silêncio
e as palavras nos tocam
em som de pensamento e voz de sonho.

Temos cenários
ouro
asas maduras
travo de história
e tímidas ternuras pela boca.

O mesmo gesto modela nossos membros
e logo os ata.
Falamos juntos coisas separadas
vivemos separados coisas juntas
e uno e o tempo de nossas vestes
distâncias e lugares.

Sob o teto sem fim de nossa sombra
caminham nossas sombras de mãos dadas.


Modus operandi


Aqui cabem amor esquecimento
e tudo mais que a vida acondicione
cabe a mochila das férias
e mais o crime
o medo
o espanto e a coorte dos desejos.

Cabe o perdão aqui
contanto que as articulações sejam poupadas
e cabe mais uma vontade imensa
obstinada
de pétalas se abrindo.

Uma homenagem à poetisa Dade Amorim no dia de seu aniversário.
Outros poemas da autora aqui no seu belíssimo espaço "Inscrições"


domingo, 19 de agosto de 2012

Leio Poemas em Voz Alta

Leio Poemas em Voz Alta





Escrevo para dormir
ou para perder o sono
matar a sede
saciar a fome:

escrevo para ficar contigo
lembrar de ti
E perdem o encanto
as coisas de vez em quando

então leio poemas
em voz alta
Quebra o silêncio o som da minha voz
e tento visualizar teu rosto feito imagem no horizonte

(fugidio instante)
assim

iguais aos dias que tem feito aqui
com sol
densas nuvens chuva forte
E sol de novo: indecisos instantes...

Vou tocando a vida aqui
reinvento-me e quem faz isso
sabe (o quanto é doloroso)

Mas existe outro jeito?



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

JUGO



Obedecer à doce tirania da palavra.
Anular censura, momento, lugar.
Deixar no papel o verso líquido,
esse pálido espelho da alma.
Enquanto deixo-me estar,
impressionada pela cor da palavra
"pálida".



Ana Cecilia de Sousa Bastos


sábado, 11 de agosto de 2012

"Sonetinho" - Cibele Camargo


Ao encostar-me nos cantos
contemplei aos prantos entre aplausos e encantos
sua parte feia.

Melhor seria sua voz presente
no entanto distante
ficarei com o silêncio a sós
na boca seca a ligação em nós.

Tanto pior, seria anunciar o fim
sem mostrar ao seu chão
as saudades de quem te ama
das lembranças que fez-se o drama.

Qualquer coisa maior que a vida
é meu pensamento
num gemido os enganos
nos labores, os encantos enlaçarão os anos
levarão aquilo que parecia
aos assovios da ventania.


Mais da poeta Cibele Camargo em seu blog.