PÁGINAS

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Pérolas de Ianê Mello,poeta que derrama sua sensibilidade e sentidos.




PÁSSARO NEGRO


Solidão que invade
cálice de vinho

Companheiro mudo
Pássaro das horas
Negro pássaro


Chama de vida
Queima 
Arde



Rugas do tempo
Riso das horas...
Pálidas
Cativas

Peso das noites
Em ombros caídos

Flácido corpo
Cegos os olhos...

Pássaro Negro
em pouso febril
prisioneiro e algoz
pacientemente espera... 


SOB O LENÇOL




O lençol que teu corpo cobre
em pureza se revela
em branca alvura
da carne por ele revestida



...

em algodoados sentires
teu corpo repousa plácido
na memória adormecida
de noites de amor mal dormidas


·         ENTOANDO SENTIRES




Do rock ao blues
do blues ao jazz
passeio entre sons e tons

teço manhãs
em violinos e harpejos

incendeio entardeceres
em dissonantes solos de guitarra

amo entre lençóis
enquanto canta Billie

anoiteço em Miles e Miles
viajando nas estrelas
“Kind of blue”

Explode coração 
no peito do desafinado 
sangra a pele 
não dá mais prá segurar
gonzagueio em sentires

Olha lá o Nego
Itamar...
a cada Milágrimas
o milagre da vida

A música do mundo 
que toca
fora
a música do viver 
que bate
dentro

E a pergunta que não quer mais calar:
- E a vida o que é meu irmão?
E o coração que não se cansa
e vive na esperança...
Tum-tum, bate coração
e a resposta na pureza da criança:
- É bonita, é bonita e é bonita!!!!!


terça-feira, 11 de setembro de 2012

No coração das imagens

1. REVIRANDO A TERRA

"Quem ama as substâncias
ao designá-las já as trabalha."
Gaston Bachelard


Recordo saudosamente o tempo em que a terra
me encantava: do cheiro à massa; da cor à pasta.
Pasta maciça, consistência que excita os dedos ágeis,
de uma agilidade avessa, oleiro do improvável.
E era na terra que me sentia eu mesmo,
sonhador de unhas grandes, cavador de sulcos densos,
aprimorava a potência naturalmente esculpidora em mim.
Revirando a terra nas suas múltiplas possibilidades,
via um cosmo inteiro soterrado, funcionando numa lógica invertida.
Seres curiosos e sem olhos viam por vibrações:
cada tremular era sinfonia e filmes de imagens coloridas.
QUE ESPETÁCULO VER SEM OLHOS! VER POR VIBRAÇÕES!

Revirando a terra encontrava utensílios antepassados
e antepassados - antepassados mesmo! -
Sentado na terra habitava por momentos imensuráveis
o próprio mundo decorrido, já-passado!

Refrescando a mão árdua da posição de engatinhada,
sentia a úmida resposta das profundezas da terra,
e ali, cada vez mais, era eu mesmo que me sentia.
De olhos fechados, mão na terra, corpo espalhado
como raízes e galhos de um carvalho complexo
via como os seres do antromundo:
via por vibração, por densidade, pela umidade;
e sentindo, dizia todas as suas propriedades...
Ia sabendo a origem, a composição, a perecibilidade ,
a quantidade de solvente necessário
para uma maior maleabilidade da massa.
Tudo por aprender, como por osmose, revirando a terra.

Mas como dura pouco o trabalho devaneante!
Chicoteado nas costas, acordei no susto.
Com as sementes no fardo, derrubando-as desmedidamente,
descobri a brutalidade do ser despertado!
Revirando a terra em série, completei o turno,
mas conservei dentro das unhas de roedor,
fragmentos vibratórios da lição aprendida
no contato com a mais úmida terra.

Reservei em meu leito um espaço em que guardava
(a cada novo delírio terrestre) resquícios daquela terra sonhada,
e no minúsculo baú não pude hesitar em escrever:
"Santuário das terras reviradas."
Antes de dormir, quando acordo, antes do trabalho,
antes de SAIR PARA A VIDA,
toco, cheiro e recordo que a parte que mais me pertence
de mim mesmo fora deixada ali, num internato com os
seres cegos que enxergam por vibração: e a cada dia,
em cada abertura do santuário, uma nova lição
Sobre ver por vibração é aprendida, e
posso voltar à vida da maneira como ela é.


2. Espírito em borda

Só há bordas, margens,
Cais, nada mais visível
Aos planos oculares.
Aqui, tudo cai e jaz caído
Na verticalidade imposta
Éter à barro...
Embebemo-nos de bordas,
Rebocos no vazio, 
Mutirão que pinta o ar
E a arte faz vento -
Ou o vento faz arte?

Dobras no cais, onde a barca
Não se aproxima... Há que ser
Tocada por algum espírito
Intocado!

Rumores que escapam da posse, 
Ainda... Escape ao lado,
Lado-a-lado das margens, 
À fúria da flâmula que arde
À procura de todo espaço.
E há o que escapa: a volta, 
A dobra enérgica que afasta
Toda possessão!

O litoral, termômetro morno,
Convidá-nos a sermos bordas
Menos rebuscadas
Limpas em areias.
Desmancham o ser em líquidos
Que colorem o mar:
Homens n'água!
Escorrem atormentadamente
Levadas ao ritmo brando da brisa,
Aceitando ser margem encalhada.

Se avistares a dobra intocada
Do cais inatingível, dobre-se
Reverente: aquilo que não atingimos
Exige-nos reverência.
O liame intocado 
Deve ser reverenciado, 
Ainda que seja um cais,
Uma margem ou uma borda.

No calor, o que mais querer,
A não ser diluir-se lascivamente
Não temendo escapar aos princípios
Que prendem o corpo?
No calor, o corpo é borda,
Margem e dobra; dele
Sobe-desce raios brilhantes:
O corpo é margem em espetáculo
De cor, quando molhado, o sol
Reflete sua glória.
A areia, embebida do
Caldo quente dos 
Homens n'água,
Contém espíritos banhados
Em bordas...

E o corpo é espiritual em suas dobras
Que sobem-descem no vão
Intocado por espíritos intocados;
Corpo-cais, onde as barcas
Não conseguem tocar.



Ailton Volpato 

domingo, 9 de setembro de 2012

O POETA CEGO

O POETA CEGO

Eis o poeta cego.
Abandonou-o seu ego.
Abandonou-o seu ser.
Por nada ser ele verseja.

Bem antes do amanhecer
em seus versos talvez se veja
diverso de tudo o que seja
tudo que almeja ser.




Poema de ANTONIO CICERO
(dê um click e visite o blog do poeta)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mane, Tecel, Fares


Nosso banquete não sacia.
Comi o tempo inutilmente
e inutilmente é a única
palavra do epitáfio.

Mais pesada do que a terra
é a espessa pátina de tantos
desejos e outros venenos
que aqui jazem para sempre.

Sobre o peito, sobre nada
se entrecruzam meus dedos
nus e quebrados por sonhos
cheios de anéis.


[Ruy Espinheira Filho]

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Três poemas de Miguel Sanches Neto

Postagem elaborada pelo  Prof. Jayme Bueno
                                               (dê um click)


Em suas palavras:

“Poemas do amigo, ex-aluno, famoso crítico literário, grande romancista, excelente cronista. Como poeta é pouco conhecido. Porém, dos melhores.”




Ligação

(Miguel Sanches Neto)


Súbito me lembro de um antigo telefone.
Seu número irrompe em minha memória
e não sei de quem é, nem quando nem onde,
sei apenas que é um endereço que dói.

Disco sem esperança estes dígitos antigos
e então ouço chamar numa casa no tempo
à qual me prendo pelo cordão do umbigo
que não pôde ser cortado a contento.

Através de um fio imaterial me religo
às ruínas de uma infância só mito.
Do outro lado, alguém atende o telefone

e a voz que me chega por este conduto
é a da criança que tem o meu nome,
é a que perdi quando me tornei adulto.

(NETO, Miguel Sanches. Venho de um país obscuro, 2000, p.35)






Revendo uma foto antiga

(Miguel Sanches Neto)


Nesta foto do tempo de criança
o que mais me encanta
não é nossa alegria de infantes
mas a réstia de luz de uma manhã
brilhando no chão da varanda.

Ninguém apaga este sol
que nos chega da infância.

(NETO, Miguel Sanches. Venho de um país obscuro, 2000, p.53)






Balada do inquilino
(Miguel Sanches Neto)

Esta vida, não se iluda,
É uma casa alugada.
Haverá um dia em que
Não poderemos pagá-la
E seremos despejados.

Antes, outros perderão
O direito de habitá-la.
Aquele que vive no quarto
Com medo do desfecho
E quem, corajosamente,
Armou sua cama na sala
- todos irão do mesmo jeito.

Este senhorio é implacável.
Um dia não poderemos pagá-lo
E então nos expulsará deste berço
E passaremos a noite ao léu
- fantasma que nada tem de seu,
corpo, roupas ou endereço.

Um dia nos livraremos do aluguel.

(NETO, Miguel Sanches. Venho de um país obscuro, 2000, p.65)

sábado, 1 de setembro de 2012

Se


Poema de Antônio Moura

                                    
Se tua mãe não houvesse te levado ao colo
àquele momento, e teus pequenos passos

inocentes tivessem tomado outro rumo,
pequeno barco desastrado que ao mar se

perde ao perder a orientação dos astros e
fosse de encontro ao rochedo, digo, ao

móvel de cedro no canto da sala, derrubando
um vaso e este pequeno detalhe pudesse ter

desencadeado toda uma trama de eventos,
outra cadeia de acontecimentos que um após

o outro fossem entretecendo teu destino
para um outro roteiro, outra viagem que

em nenhum instante cruzasse meu caminho,
que, paralelo ao teu, seguia sob o céu sozinho.

Se tua mãe não houvesse te levado ao colo
àquele dia, este dia, eu e tu, acaso, existiria?



Antônio Moura nasceu em 1963 em Belém do Pará. Publicou os livros "Dez" (1996), "Hong Kong" (1999), "Rio Silêncio" (2004), "A Sombra da Ausência" (2009).


Leitura do poema "Se":


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Poemas de Jorge Santos





(As Gardénias nuas das Varandas)


Supondo que era vassalo dilecto,
Das Galerias da rua dos botequins,
Espalhei p’lo céu, bem lá no alto,
Em reclamos mediáticos e pasquins

Feios, simples e práticos querubins      
Sem talento, muitos já com defeito,
Mas o efeito foi oposto e não serviu os fins
Supostos; delas ser, poet’eleito;

Tomei a dor como revestimento,
Sem dar conta q’não mereciam tanto,
(Tais montras impáveis de manequins)

Hoje moro inda mais alto q’no monte
Pr’ás ver d’ponto mais longe e distante,
(Galdérias pintadas nuas en'varandins).




Apesar d’as janelas estarem abertas de par em par,
Todo o ruído lá fora se diluiu, sumido no ar…
Uma criança que chorava breve, o cochichar das velhas
Sobre vidas que não as suas, a indefinição das ruas

Num refrão constante, com todos os sons e notas
Que chegavam aos meus ouvidos, como um respirar
De pautas musicais, escritas nos vitrais abertos,
Lembravam-me místicas visões e novas versões de credos,

Que o não eram, não deparava com magos nas vielas
Nem fadas, nem gnomos nesse mundo de mil celas,
Apenas janelas de imitação em magros corredores de cal,
Mas onde todos os sons soavam para mim de forma original,

Eles, como eu, não durámos para sempre,
Não escolhemos o vento que nos soprava
No ouvido o respirar do universo, como se fosse
Algo que se ouvisse (um pensamento, uma frase…)

Sussurro agora do vazio que tenho no fundo do coração,
Os sonhos que outros já sonharam nesta mesma mansão,
Apenas as surdas janelas continuam ainda abertas,
Mas as velhas da rua não passam , nem consigo mais ouvi-las…








Aqui estou, sossegado, escondido,
Longe da vista e dos mistérios
Do existir, de tudo, do mundo.
Aqui estou, sem me fazer notar muito

Nos meus gestos duplicados.
Supondo ter sido tudo dito,
De quando enquanto fecho os olhos
E é num sonho branco que admito

Coabitar sozinho com a eternidade.
Neste inexplicável casulo,
Quase um Confessionário de padre,
Num sossego nulo…

 (O resto do monólogo... não irias entende-lo
Nem te servirei eu de consolo ou conselho)
Afinal nada de novo acontece neste mundo velho,
Eu continuo oculto, morando frente ao espelho.





Dê um click:  Jorge Santos   




sábado, 25 de agosto de 2012

QUATRO POEMAS DE CRIS DE SOUZA



A criatura em perigo

muda de cor
a oração
como um reles
camaleão.

Monstruosa madrugada

dou voltas pela casa
casa envolta em sono

mas que acorda
um monstro 
 mais que a corda
em meu pescoço
  

Latim de longa data

feito um romance
que ficasse em aberto            
e perto do peito
desperto

feito um romance
que ficasse em aperto           
e parte do peito
deserto

por ser lento por dentro:
sem  temer desde cedo?

por se lido por dentro:
sem temer o desfecho?
Haicai acordado

no correr da insônia
sonâmbula é a sombra
                  dos meus dedos
 

Encontre mais da poesia de Cris AQUI e ALI