PÁGINAS

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Olhos fechados


Poema de José Luís Peixoto


Fecho os olhos. vejo luzes de cidades distantes. a noite
distante. vejo o brilho de um sonho tão impossível.

a escuridão é absoluta. a escuridão é infinita.
todos os cegos sabem que a escuridão é a morte.

fecho os olhos. vejo aquilo que se vê com os
olhos fechados.

a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência

a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.

mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.



José Luís Peixoto nasceu em 1974 em Galveias, Ponte de Sor, Portugal. A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias traduzidas num vasto número de idiomas. Recebeu prêmios pelos romances: "Nenhum Olhar" e "Cemitério de Pianos", e o prêmio de Poesia Daniel Faria com o livro "Gaveta de Papéis".


Leitura do poema "Olhos Fechados":


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Dois poemas de Nilson Barcelli

Dentro de ti

Dentro de ti,
és a mulher sem-par que tenho,
mas não pego,
de ti, o gozo nos meus braços totalmente.

Dentro de ti,
vou-te perdendo tolhido
pelo mutismo da renúncia,
cada manhã despida de horizontes
faz crescer o meu exílio
e cada voz em silêncio é uma grade
acrescentada na minha prisão.

Dentro de ti,
com o sol a morrer em pegadas de imundície
e varrida pela
brisa enxovalhada na mentira que campeia,
não há trabalho nem pão.

Dentro de ti,
já não sei se és minha mãe,
porque os tempos, mátria minha,
não se cruzam com a nossa liberdade.
Mas eu não te renego, ainda que hoje sejas
a minha pátria mal-amada.


(Poema: Nilson Barcelli © Julho 2012)



Do outro lado da porta

Logo que as doze badaladas soaram,
fez-se um silêncio de porta blindada, impermeável.

Os pássaros tristes [um de cada lado],
apesar de muito vivos e finos,
sentiram a bravura domada pela espessura
[vazia nas mãos] das festas há muito trocadas.

Um, pintou o mar imenso na porta,
mas não pensou no caminho marítimo para a Índia.

O outro, pintou um pomar, mas não foi
o sabor dos frutos que lhe veio à lembrança.

Agora, com o eco das doze badaladas às costas,
caminham com o óbvio na barriga
a ensaiar o olhar no aquém do horizonte [a aliança
está morta], mas todos os caminhos da mente
vão dar a Roma, do outro lado da porta.


(Poema: Nilson Barcelli © Novembro 2010)


Blogue do Nilson: NimbyPolis



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Poesia de Mariana Gouveia


# extratos III

#
Às vezes ouvia músicas que trazia momentos.Meio relicário,sei lá...O rádio tocava a canção e ela queria dançar.
Também usava palavras que não eram suas para dizer que a amava. Palavras da própria canção que ouvia e que ela queria dançar.Era um desejo secreto.

#
E o silêncio tomou conta de tudo.Ao percorrer os aposentos nesse dia buscou ela em cada canto.
O espelho mostrava a estranha em que ela mesma havia se transformado.Não havia mais música tocando.
Só o vidro vazio do seu perfume continuava a exalar a essência que ela tanto buscava nos lençóis,no travesseiro.
#
E havia ainda o sabor da sua pele,a textura, aquela maneira de apenas fechar os olhos e tocá-la...quase sentia o gosto.
#
Chovia. Chovia sempre.E as palavras dela sobre a chuva ecoavam por ali...
e a maneira como ela lia Maria Teresa Horta ficou registrado numa gravação.
#
Também sentia a sua falta: a suavidade plena de pensar nela ali.
bebia o café junto com ela.Era assim que o dia começava a ser lindo.

#
Um dia,o rádio tocará a mesma canção e ela estara ali ao alcance dos beijos e das mãos.
Mariana Gouveia

domingo, 30 de setembro de 2012

Dois poemas de Lalo Arias


    • Lalo Arias ,o poeta que faz do sentir um momento maior!

      (Graça de Souza Feijó)





      CORAÇÃO




      tenho medo

      de não ouvir mais a tua voz

      ou de esquecer

      de ontem

      quando você saiu

      pra comprar um par de sapatos

      e voltou

      com três pares de sapatos

      tenho medo

      de ser sentimental demais

      e tenho medo do tempo

      mas ele é meu aliado

      ele me ampara

      enquanto eu respiro

      enquanto eu fico calado

      no balcão do bar

      em frente ao amigo

      que me serve

      alegria,

      por favor,

      é aqui que vivo

      é aqui que morrerei

      tenho medo

      que não haja mais tempo

      de dizer

      pai

      eu te amo

      ou de ouvir minha filha

      dizendo

      pai

      eu te amo

      tenho medo que não haja 

      mais tempo

      de ouvir as crianças

      recitando

      meus poemas


      (setembro, 2012)





      O MAIOR AMOR DO MUNDO


      Ontem saltei pela sétima vez
      da ponte
      A mesma ponte sem rio por baixo
      sem trovoadas por cima
      Imaginei um oceano
      coroando a noite
      como um mar de pétalas
      que se junta
      a um mar de pérolas
      que resulta
      num mar de pedras
      rolando
      por baixo da ponte
      E o frio era tanto
      que abraçar a mim mesmo não bastava
      Agarrar o ar
      revendo
      um barco que aderna
      por trás do horizonte
      enquanto salto
      pela sétima vez

  •  Lalo Arias

    (Dê um click)




quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Deus






Um Deus silencioso nos impele
a compreender a linguagem dos sinais.
Há em tudo um sentido : velado
à espera de quem melhor o traduza.
O verbo – o do princípio - segue
desafiando
razão : descrenças : preconceitos
[loucura : crenças : prepotências]
nas noites mais escuras
pode-se ouvir um eco vindo de dentro
do corpo/templo
em que este Deus habita.
No tempo do silêncio dos homens.

Nydia Bonetti






terça-feira, 25 de setembro de 2012

Dois poemas de MARIA ESTHER MACIEL




OFÍCIO

Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o oco
da palavra nada.





AULA DE DESENHO

         Estou lá onde me invento e me faço:
         De giz é meu traço. De aço, o papel.
         Esboço uma face a régua e compasso.
         É falsa. Desfaço o que fiz.
         Retraço o retrato. Evoco o abstrato
         Faço da sombra  minha raiz.
         Farta de mim, afasto-me
         e constato: na arte ou na vida,
         em carne, osso, lápis ou giz
         onde estou não é sempre
         e o que sou é por um triz.




Maria Esther Maciel

domingo, 23 de setembro de 2012

Móbile



O móbile
gigante que seus olhos não viram,

que seus olhos não quiseram,
que seus olhos não e não.

Ficou lá, inútil, adiado
sobre o domingo,

o monstro
que seus cuidados não souberam,

que seu medo não quis,
que nem ao menos.

Está lá, inútil, ardil desativado,
sobre nada,

lixo,
lixo,

mas, esteja certo disto, tinha o tamanho
certo de nos vestirmos com ele, para,

dentro dele, suspensos,
descansarmos na palma um do outro, acredite,

era lindo, era fácil,
era puro.


Eucanaã Ferraz


sábado, 22 de setembro de 2012

NOS DESCAMINHOS DA PALAVRA






NOS DESCAMINHOS DA PALAVRA

Márcio Claudino



Nos descaminhos da palavra
Estava escrito que céu é êxtase mirrado de sono azul.
Céu às vezes rubricado por raio de luar
E da estrela da manhã,
De brusquidão e lusco-fusco de navegação tenebrosa.
Nos descaminhos da palavra
Um reinventar o agonizante desfecho da tarde
E os solos de música derreada das charnecas.
Nos descaminhos da palavra,
Desaprender a cada dia o nome das coisas.
Nos descaminhos da palavra a palavra poesia dá sinônimo
À pedra...
Travesseiro onde descansar a cabeça mirrada da górgona...
Envio o meu coração embalsamado na urna memorial que voa.
Mando-te em veludo
A conta das dores dos dias em que te conheci.
Dias em que o descaminho da palavra amor
Nunca tanto significou
Colapso


O poeta Márcio Claudino, cujo nome completo é Márcio Davie Claudino da Cruz , foi o primeiro colocado no Concurso de Poesia Helena Kolody 2005 - 15ª edição. Da Secretaria do Estado da Cultura do Paraná – Categoria Paraná.

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Sugestão de postagem do Prof. Jayme Bueno

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

UMA AMOSTRA DA SURPREENDENTE POESIA DE DOMINGOS BARROSO

tambores no teto

Se nascemos uma folha em branco
e a cada dia da nossa morte
escrevemos nosso destino,

ai de mim
que sempre tive
as mãos trêmulas.

Mas se a ferro e a plumas
já acordamos no caminho

sem que treva alguma
possa escurecer
a viagem

e nenhum céu azul
possa fazê-la mais bela,

ai de mim
que ando trôpego
e quase cego.

Ainda hoje deixo parte da minha loucura
na porta de estranhos e de longe
tenho a impressão

que sou eu quem abre a porta
pega os pães, o leite, o jornal

e olha triste
o fim da rua.


Para acompanhar mais da poesia do excelente Domingos Barroso, vá até o blog dele: LACAIO DA POESIA

sábado, 15 de setembro de 2012

3 grandes poetas contemporâneos: Lalo Arias, Assis Freitas e Nina Rizzi


A CAIXA DE COSTURA DE DONA ANA

Este é um lugar cheio de fraturas
Pequeno osso
transformado em botão
Outro pequeno osso
outro botão
As cores são magníficas
e elas resistem há várias vidas
Estou cheio de fraturas
e agulhadas
Também
demorei meses para abrir
a caixa
E as linhas
então
enfileiradas
continuam enroladinhas
como se estivessem prontas
Carretéis de todos os tons
prontinhos pra partir
Certamente a espera
é a minha bagagem

Lalo Arias


ciranda de desconhecimento para senhora dos lilases

eu nada sei sobre o princípio das coisas
perscruto arcturus, aldebarã
espero um novo big bang para florir
por enquanto contemplo o caos
quero um estojo de madrepérolas
uma coleção de heliantos tardios
quem sabe o infinito esteja em teus lábios

Assis Freitas


lastro

a poesia dizia que a gente não ia mais parar
de se olhar. nunca mais, nunca mais.
e eu não li mais nada. quiçá viouvi. Amiúde

deixei de me derramar também. hoje,

eu dou umas risadinhas como as suas. umas
risadinhas assim, meio de leve, de olhar buendía. de você
peguei isso, assim, sem querer. você

me dá vontade de chorar.

Nina Rizzi
http://ninaarizzi.blogspot.com.br/