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Vida: objeto de desejo
Nós desejamos pinguins. Não os de geladeira com seu peso fixo de massa pintada sua estatuária de cozinha sem nenhum sopro de da Vinci. Nós desejamos pinguins. Não os das geleiras que nos esfriam os dedos ao toque de suas penas firmes. Frios são os caminhos que a morte nos envia. Desejamos os pinguins de nosso assombro fechados dentro de nós no desejo como pérolas nas ostras. Ostras não sabem das pérolas que engendram e trazem consigo. E nós que os formamos do escuro, deles só temos o rastro, pinguins, com seu brilho de nácar. De velhos cadernos escolares Partimos de barco em direção à ilha, pequena, redonda e verde como a dos cadernos escolares. No centro, alguns coqueiros. Ao pisarmos o seu chão, desfez-se, desprendendo cheiros de vegetação e terra úmida que se juntaram ao de maresia. Como se no ar à nossa volta perdurasse em novo arranjo, ilha e mar. O equilíbrio na água era precário. Certo tremor agia em cada um como instrumentos de corda quando a propagação de sons tem seu início. De volta ao barco não olhamos para trás, nem que figura ali deixáramos às nossas costas, sem real força remissiva. Zulmira Ribeiro Tavares – São Paulo, 1930. |
"Guardados" só por gosto. Apenas e tão somente para celebrar a poesia. Viva a Poesia! Salve os Poetas!
terça-feira, 9 de outubro de 2012
DOIS POEMAS DE ZULMIRA RIBEIRO TAVARES
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Olhos fechados
Poema de José Luís Peixoto
Fecho os olhos. vejo luzes de cidades distantes. a noite
distante. vejo o brilho de um sonho tão impossível.
a escuridão é absoluta. a escuridão é infinita.
todos os cegos sabem que a escuridão é a morte.
fecho os olhos. vejo aquilo que se vê com os
olhos fechados.
a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência
a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.
José Luís Peixoto nasceu em 1974 em Galveias, Ponte de Sor, Portugal. A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias traduzidas num vasto número de idiomas. Recebeu prêmios pelos romances: "Nenhum Olhar" e "Cemitério de Pianos", e o prêmio de Poesia Daniel Faria com o livro "Gaveta de Papéis".
Leitura do poema "Olhos Fechados":
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Dois poemas de Nilson Barcelli
Dentro de ti
Dentro de ti,
és a mulher sem-par que tenho,
mas não pego,
de ti, o gozo nos meus braços totalmente.
Dentro de ti,
vou-te perdendo tolhido
pelo mutismo da renúncia,
cada manhã despida de horizontes
faz crescer o meu exílio
e cada voz em silêncio é uma grade
acrescentada na minha prisão.
Dentro de ti,
com o sol a morrer em pegadas de imundície
e varrida pela
brisa enxovalhada na mentira que campeia,
não há trabalho nem pão.
Dentro de ti,
já não sei se és minha mãe,
porque os tempos, mátria minha,
não se cruzam com a nossa liberdade.
Mas eu não te renego, ainda que hoje sejas
a minha pátria mal-amada.
(Poema: Nilson Barcelli © Julho 2012)
Do outro lado da porta
Logo que as doze badaladas soaram,
fez-se um silêncio de porta blindada, impermeável.
Os pássaros tristes [um de cada lado],
apesar de muito vivos e finos,
sentiram a bravura domada pela espessura
[vazia nas mãos] das festas há muito trocadas.
Um, pintou o mar imenso na porta,
mas não pensou no caminho marítimo para a Índia.
O outro, pintou um pomar, mas não foi
o sabor dos frutos que lhe veio à lembrança.
Agora, com o eco das doze badaladas às costas,
caminham com o óbvio na barriga
a ensaiar o olhar no aquém do horizonte [a aliança
está morta], mas todos os caminhos da mente
vão dar a Roma, do outro lado da porta.
(Poema: Nilson Barcelli © Novembro 2010)
Blogue do Nilson: NimbyPolis
Dentro de ti,
és a mulher sem-par que tenho,
mas não pego,
de ti, o gozo nos meus braços totalmente.
Dentro de ti,
vou-te perdendo tolhido
pelo mutismo da renúncia,
cada manhã despida de horizontes
faz crescer o meu exílio
e cada voz em silêncio é uma grade
acrescentada na minha prisão.
Dentro de ti,
com o sol a morrer em pegadas de imundície
e varrida pela
brisa enxovalhada na mentira que campeia,
não há trabalho nem pão.
Dentro de ti,
já não sei se és minha mãe,
porque os tempos, mátria minha,
não se cruzam com a nossa liberdade.
Mas eu não te renego, ainda que hoje sejas
a minha pátria mal-amada.
(Poema: Nilson Barcelli © Julho 2012)
Do outro lado da porta
Logo que as doze badaladas soaram,
fez-se um silêncio de porta blindada, impermeável.
Os pássaros tristes [um de cada lado],
apesar de muito vivos e finos,
sentiram a bravura domada pela espessura
[vazia nas mãos] das festas há muito trocadas.
Um, pintou o mar imenso na porta,
mas não pensou no caminho marítimo para a Índia.
O outro, pintou um pomar, mas não foi
o sabor dos frutos que lhe veio à lembrança.
Agora, com o eco das doze badaladas às costas,
caminham com o óbvio na barriga
a ensaiar o olhar no aquém do horizonte [a aliança
está morta], mas todos os caminhos da mente
vão dar a Roma, do outro lado da porta.
(Poema: Nilson Barcelli © Novembro 2010)
Blogue do Nilson: NimbyPolis
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Poesia de Mariana Gouveia
# extratos III
#
Às vezes ouvia músicas que trazia momentos.Meio relicário,sei lá...O rádio tocava a canção e ela queria dançar.
Também usava palavras que não eram suas para dizer que a amava. Palavras da própria canção que ouvia e que ela queria dançar.Era um desejo secreto.
#E o silêncio tomou conta de tudo.Ao percorrer os aposentos nesse dia buscou ela em cada canto.
O espelho mostrava a estranha em que ela mesma havia se transformado.Não havia mais música tocando.
Só o vidro vazio do seu perfume continuava a exalar a essência que ela tanto buscava nos lençóis,no travesseiro.
#
E havia ainda o sabor da sua pele,a textura, aquela maneira de apenas fechar os olhos e tocá-la...quase sentia o gosto.
#
Chovia. Chovia sempre.E as palavras dela sobre a chuva ecoavam por ali...
e a maneira como ela lia Maria Teresa Horta ficou registrado numa gravação.
#e a maneira como ela lia Maria Teresa Horta ficou registrado numa gravação.
Também sentia a sua falta: a suavidade plena de pensar nela ali.
bebia o café junto com ela.Era assim que o dia começava a ser lindo.
#
Um dia,o rádio tocará a mesma canção e ela estara ali ao alcance dos beijos e das mãos.
Mariana Gouveia
domingo, 30 de setembro de 2012
Dois poemas de Lalo Arias
Lalo Arias ,o poeta que faz do sentir um momento maior!
(Graça de Souza Feijó)
CORAÇÃO
tenho medode não ouvir mais a tua vozou de esquecerde ontemquando você saiupra comprar um par de sapatose voltoucom três pares de sapatostenho medode ser sentimental demaise tenho medo do tempomas ele é meu aliadoele me amparaenquanto eu respiroenquanto eu fico caladono balcão do barem frente ao amigoque me servealegria,por favor,é aqui que vivoé aqui que morrereitenho medoque não haja mais tempode dizerpaieu te amoou de ouvir minha filhadizendopaieu te amotenho medo que não hajamais tempode ouvir as criançasrecitandomeus poemas(setembro, 2012)O MAIOR AMOR DO MUNDOOntem saltei pela sétima vezda ponteA mesma ponte sem rio por baixosem trovoadas por cimaImaginei um oceanocoroando a noitecomo um mar de pétalasque se juntaa um mar de pérolasque resultanum mar de pedrasrolandopor baixo da ponteE o frio era tantoque abraçar a mim mesmo não bastavaAgarrar o arrevendoum barco que adernapor trás do horizonteenquanto saltopela sétima vez
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Deus
Um Deus silencioso nos impele
a compreender a linguagem dos sinais.
Há em tudo um sentido : velado
à espera de quem melhor o traduza.
O verbo – o do princípio - segue
desafiando
razão : descrenças : preconceitos
[loucura : crenças : prepotências]
nas noites mais escuras
pode-se ouvir um eco vindo de dentro
do corpo/templo
em que este Deus habita.
No tempo do silêncio dos homens.
Nydia Bonetti
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Dois poemas de MARIA ESTHER MACIEL
OFÍCIO
Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o oco
da palavra nada.
AULA DE DESENHO
Estou lá onde
me invento e me faço:
De giz é meu
traço. De aço, o papel.
Esboço uma
face a régua e compasso.
É falsa.
Desfaço o que fiz.
Retraço o
retrato. Evoco o abstrato
Faço da
sombra minha raiz.
Farta de mim,
afasto-me
e constato:
na arte ou na vida,
em carne,
osso, lápis ou giz
onde estou
não é sempre
e o que sou é
por um triz.
Maria Esther Maciel
domingo, 23 de setembro de 2012
Móbile
O móbile
gigante que seus olhos não viram,
gigante que seus olhos não viram,
que seus olhos não quiseram,
que seus olhos não e não.
que seus olhos não e não.
Ficou lá, inútil, adiado
sobre o domingo,
sobre o domingo,
o monstro
que seus cuidados não souberam,
que seus cuidados não souberam,
que seu medo não quis,
que nem ao menos.
que nem ao menos.
Está lá, inútil, ardil desativado,
sobre nada,
sobre nada,
lixo,
lixo,
lixo,
mas, esteja certo disto, tinha o tamanho
certo de nos vestirmos com ele, para,
certo de nos vestirmos com ele, para,
dentro dele, suspensos,
descansarmos na palma um do outro, acredite,
descansarmos na palma um do outro, acredite,
era lindo, era fácil,
era puro.
sábado, 22 de setembro de 2012
NOS DESCAMINHOS DA PALAVRA
NOS
DESCAMINHOS DA PALAVRA
Márcio Claudino
Nos descaminhos da palavra
Estava escrito que céu é êxtase mirrado de sono
azul.
Céu às vezes rubricado por raio de luar
E da estrela da manhã,
De brusquidão e lusco-fusco de navegação
tenebrosa.
Nos descaminhos da palavra
Um reinventar o agonizante desfecho da tarde
E os solos de música derreada das charnecas.
Nos descaminhos da palavra,
Desaprender a cada dia o nome das coisas.
Nos descaminhos da palavra a palavra poesia dá
sinônimo
À pedra...
Travesseiro onde descansar a cabeça mirrada da górgona...
Travesseiro onde descansar a cabeça mirrada da górgona...
Envio o meu coração embalsamado na urna
memorial que voa.
Mando-te em veludo
A conta das dores dos dias em que te conheci.
Dias em que o descaminho da palavra amor
Nunca tanto significou
Colapso
O
poeta Márcio Claudino, cujo nome completo é Márcio
Davie Claudino da Cruz , foi o primeiro colocado no Concurso de
Poesia Helena Kolody 2005 - 15ª edição. Da Secretaria do Estado da Cultura do Paraná – Categoria
Paraná.
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Sugestão de postagem do Prof. Jayme Bueno
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
UMA AMOSTRA DA SURPREENDENTE POESIA DE DOMINGOS BARROSO
tambores no teto
e a cada dia da nossa morte
escrevemos nosso destino,
ai de mim
que sempre tive
as mãos trêmulas.
Mas se a ferro e a plumas
já acordamos no caminho
sem que treva alguma
possa escurecer
a viagem
e nenhum céu azul
possa fazê-la mais bela,
ai de mim
que ando trôpego
e quase cego.
Ainda hoje deixo parte da minha loucura
na porta de estranhos e de longe
tenho a impressão
que sou eu quem abre a porta
pega os pães, o leite, o jornal
e olha triste
o fim da rua.
Para acompanhar mais da poesia do excelente Domingos Barroso, vá até o blog dele: LACAIO DA POESIA
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