Ele tinha no rosto um sonho de ave extraviada.
Falava em língua de ave e de criança.
Sentia mais prazer de brincar com as palavras
do que de pensar com elas.
Dispensava pensar.
Quando ia em progresso para árvore queria florear.
Gostava mais de fazer floreios com as palavras doque de fazer ideias com elas.
Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem
que chegar ao grau de brinquedo
Para ser séria de rir.
Contou para a turma da roda que certa rã saltara
sobre uma frase dele
E que a frase nem arriou.
Decerto não arriou porque tinha nenhuma
palavra podre nela.
Nisso que o menino contava a estória da rã na frase
Entrou uma Dona de nome Lógica da Razão. A Dona usava bengala e salto alto.
De ouvir o conto da rã na frase a Dona falou:
Isso é Língua de brincar e é idiotice de criançaPois frases são letras sonhadas, não têm peso,
nem consistência de corda para aguentar uma rã
em cima dela
Isso é língua de Raiz – continuou
É língua de Faz-de-contaÉ língua de brincar!
Mas o garoto que tinha no rosto um sonho de ave
extraviada
Também tinha por sestro jogar pedrinhas no bom
senso.
E jogava pedrinhas:
Disse que ainda hoje vira a nossa Tarde sentadasobre uma lata ao modo que um bentevi sentado
na telha.
Logo entrou a Dona Lógica da Razão e bosteou:
Mas lata não aguenta uma Tarde em cima dela, eademais a lata não tem espaço para caber uma
Tarde nela!
Isso é Língua de brincar
É coisa-nada.
O menino sentenciou:
Se o Nada desaparecer a poesia acaba.
E se internou na própria casca ao jeito que o
jabuti se interna.
Poesia Completa/Manoel de Barros
São paulo: Leya, 2010
LIVROS INFANTIS
Poeminha em Língua de brincar [2007] - página 485
