Dentro
eu estava dentro do quarto
havia tanto dentro, você dizia
tantas portas e ruas e longes
como dias e horas e versos
apinhados de sede e de ontens
eu estava aqui dentro, você me ouvia?
boneca russa em casa de silêncios
antes do verbo, dentro da carne
meus tambores apontavam a direção
tão dentro, tão dentro, você repetia
e eu naquele vestido cor de arco-íris e espera
sandálias vermelhas, vontades, pulseiras
poemas espalhados por todo o chão
Trilhos
eu falava sobre ontens e estrelas
e media a altura dos astros
queria saber desses longes
onde para sempre e antes
as cinzas de agosto
não tocariam os meus sapatos
você falava sobre caminhos de ferro
e subvertia a lógica dos lábios
já me sabia vento, versos, palavra
queria agora e para sempre e antes
as horas de setembo
e os beijos intermináveis
"Guardados" só por gosto. Apenas e tão somente para celebrar a poesia. Viva a Poesia! Salve os Poetas!
domingo, 11 de novembro de 2012
sábado, 10 de novembro de 2012
Romance
Existiram pela tarde
e nas lagoas da noite
sentiram o cheiro que tinham
e iluminaram a pele
antes da aurora marcada.
Cantaram hinos
arfaram
as bandeiras da alegria
todas as noites do ano
tremendo no calendário.
Inexistiram
na noite sem aurora
nem lagoas
guardadas as bandeiras
refeito o calendário.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
IMAGENS DO MUNDO FLUTUANTE
IMAGENS DO MUNDO FLUTUANTE
(Josely
Vianna Baptista)
RIVU A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos
suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o
tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva.
No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.
SCHISMA Cobre se refletindo a ouro-fio nos olhos:
sem pano nem cordame, os móbiles oscilam, barcos
sem rumo, a esmo (desertos), rio adentro
(no leito cambiante), sem remo ou vela
ao vento. Vogam no entremeio, rio afora,
no linde (os sonhos) - superfície.
Nuvens e água, pênseis, a ouro-fio nos olhos.
Inverso de mortalha, os lençóis correm em álveos:
os barcos têm velâmens.
RESTE Um vento anima os panos e as cortinas oscilam,
fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol
passeia
a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz
vai desenhando as coisas: tranças brancas no
espelho,
relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus
volteios
curvos, vidros ao rés do chão reverberando,
réstias.
Filamentos dourados unem o alto e o baixo
- horizonte invisível, abraço em leito alvo:
velame de outros corpos na memória amorosa.
VELU Lúcido pergaminho, pele argêntea, de prata
(bolsa d'água, placenta), nas raízes aéreas. A
cera
e a polidez da pétala encoberta: brácteas
que se abrem (túnica) e desabrocham: filandras
e nervuras na placidez selvagem - flor
e acontecimento que se desdobra em flor.
(Velâmens, em camadas, evoluem no ar.)
A gravidez sem peso dos pecíolos no limbo.
Josely Vianna Baptista, poeta paranaense (Curitiba, 1957), classificou-se em 3.º lugar no Prêmio Jabuti 2012, na categoria Poesia. |
Livros de poesia: Ar (1991), Corpografia (1992) e Outro
(em co-autoria com Arnaldo Antunes, no álbum de arte homônimo de Maria Angela
Biscaia, 2001).
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Festa
Cada palavra tem seu espaço.
Mesmo o silêncio
tem espessura de homem.
Os tambores escutam
em surdina
a entrega do corpo.
Eis o cenário
onde a palavra se renova
pesando eternidade.
Prisca Agustoni
sábado, 3 de novembro de 2012
2 poemas de Alisson da Hora
"Pequena nota de silêncio e desalento"
o silêncio se veste com esse olhar emoldurado
em cada gota que baila nos vidros
nas quedas em asfaltos que suspiram para o ar
o vapor dos dias em mormaço
é o silêncio que atapeta os vãos dos ônibus
que carregam vários silêncios agoniados
o desalento desce escadas
às vezes fumando cigarros imaginários
às vezes matando inimigos invisíveis
quase sempre (re)vendo frustrações assombrarem
os corredores as lápides os fones de ouvido
que berram canções desamorosas
mas até elas se calam e também se vestem de silêncio
a confusão é calada
a cabeça que se encosta na janela pensativa é calada
escondidas numa trama de acordes e de fugas
a decepção é um calar-se um sibilar de cansaço
destruído
a porta fechada
as imagens ao longe
os sonhos que pedem desculpas por terem surgido
e se vão por entre os dedos
mesmo que os dedos inutilmente tente segurá-los
mesmo que os lábios em movimento num cantar surdo
tente encaixotá-los com vento no peito desarmado de amparo
se vão
em vão
até a inutilidade mais tola do dia se fantasia de calar-se
o suspiro que abre o cadeado mutilado da casa
que em blecaute espera os pés baterem em retirada
para a morte da noite que também vira as costas
numa prece de egoísmo e de enfado
resmunga que o enumerar palavras é burrice
que o gritar dos fones deve acabar
que até o lavar as mãos deve pedir às torneiras
um minuto de respeito
que até o coração repense o seu tremer
para que nos momentos do deitar
os pensamentos possam se fechar sem que isso perturbe
o esquecimento necessário para encarar um outro dia
em silêncio
é o silêncio que atapeta os vãos dos ônibus
que carregam vários silêncios agoniados
o desalento desce escadas
às vezes fumando cigarros imaginários
às vezes matando inimigos invisíveis
quase sempre (re)vendo frustrações assombrarem
os corredores as lápides os fones de ouvido
que berram canções desamorosas
mas até elas se calam e também se vestem de silêncio
a confusão é calada
a cabeça que se encosta na janela pensativa é calada
escondidas numa trama de acordes e de fugas
a decepção é um calar-se um sibilar de cansaço
destruído
a porta fechada
as imagens ao longe
os sonhos que pedem desculpas por terem surgido
e se vão por entre os dedos
mesmo que os dedos inutilmente tente segurá-los
mesmo que os lábios em movimento num cantar surdo
tente encaixotá-los com vento no peito desarmado de amparo
se vão
em vão
até a inutilidade mais tola do dia se fantasia de calar-se
o suspiro que abre o cadeado mutilado da casa
que em blecaute espera os pés baterem em retirada
para a morte da noite que também vira as costas
numa prece de egoísmo e de enfado
resmunga que o enumerar palavras é burrice
que o gritar dos fones deve acabar
que até o lavar as mãos deve pedir às torneiras
um minuto de respeito
que até o coração repense o seu tremer
para que nos momentos do deitar
os pensamentos possam se fechar sem que isso perturbe
o esquecimento necessário para encarar um outro dia
em silêncio
"Museu do inconsciente"
às vezes meus corredores se esvaziam de olhares
às vezes nenhuma luz vai dizer o que enxergo
tampouco minhas mãos vão sentir o que eu toco
nem sei se sentir é tão válido quando tudo é tão tosco
detesto as repetições, mas as faço
faço-as porque é necessário para o caminho render
faço-as porque é complicado imaginar uma seringa
no lugar dos calendários e dos cobertores
faço-as porque minha vida chega a ser uma prece
e uma ladainha que não recito mais
faço-as porque é preciso fazê-las
as portas que se fecham estão repletas de analgésicos
quase sempre minhas janelas são algum tipo de remédio
que recusam algum brado terapêutico
e ele também é necessário
embora eu o guarde
o guarde como notívago repensa o sono
o trate como consolo e como algo inevitável
como a passagem de um cometa
como um gemido esmagado por unhas tontas
como alucinações que me fazem fantasma
como um labirinto coberto por cegos
e eu estava lá imaginando como é ser vidente
no olho do furacão
no pavilhão afastado onde ninguém pisa
onde úteros já não guardam mais aquelas esperanças
elas esqueceram-se de nascer
elas não precisam mais disso
e passam a ser um suspiro quieto no fim de tudo
que às vezes a gente raspa um despertar
e esse despertar guarda uma fúria desajeitada
uma tensa paz
que às vezes chamamos cansaço
às vezes meus corredores se esvaziam de olhares
às vezes nenhuma luz vai dizer o que enxergo
tampouco minhas mãos vão sentir o que eu toco
nem sei se sentir é tão válido quando tudo é tão tosco
detesto as repetições, mas as faço
faço-as porque é necessário para o caminho render
faço-as porque é complicado imaginar uma seringa
no lugar dos calendários e dos cobertores
faço-as porque minha vida chega a ser uma prece
e uma ladainha que não recito mais
faço-as porque é preciso fazê-las
as portas que se fecham estão repletas de analgésicos
quase sempre minhas janelas são algum tipo de remédio
que recusam algum brado terapêutico
e ele também é necessário
embora eu o guarde
o guarde como notívago repensa o sono
o trate como consolo e como algo inevitável
como a passagem de um cometa
como um gemido esmagado por unhas tontas
como alucinações que me fazem fantasma
como um labirinto coberto por cegos
e eu estava lá imaginando como é ser vidente
no olho do furacão
no pavilhão afastado onde ninguém pisa
onde úteros já não guardam mais aquelas esperanças
elas esqueceram-se de nascer
elas não precisam mais disso
e passam a ser um suspiro quieto no fim de tudo
que às vezes a gente raspa um despertar
e esse despertar guarda uma fúria desajeitada
uma tensa paz
que às vezes chamamos cansaço
Alisson da Hora nasceu em Recife/PE. É mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Publica habitualmente no blog:
Leitura do poema "Museu do inconsciente":
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Duas variações de Régis Antonio Coimbra
TÃO POUCO I
Há muito no tão pouco
que trocamos tão
denso, intenso e fluido
Nos impele, hidráulico
no irrefreável curso
forçado e tão i-
lusoriamente livre
Pendes como fenda
ameaçando-me en-
tranhar regressiva-
mente ao avesso da
sequência natural
que nos exige nas-
cer, crescer e morrer
(com sorte encontrando
consorte com quem
reproduzir nossa miséria)
Amo-te a cada pequena morte
com que me inspiras cadaver-
so com que me transpiras
no corpo o reverso dum morto
ou te ao menos adias-me tal
TÃO POUCO II
Mero, resto-me
ou nem isso:
metafísico
Quero-te
Ou quase:
fantasio
Penso-me
ou nem isso:
iludo
Nisso me olhas
e me quase vês
ao projetar-me
desejando-te
como desmesurada
supões que deverias
demais gostosa
ser
Para mim que meramente
como quimericamente
como-te
és
*Régis no Facebook: Clique aqui!
Há muito no tão pouco
que trocamos tão
denso, intenso e fluido
Nos impele, hidráulico
no irrefreável curso
forçado e tão i-
lusoriamente livre
Pendes como fenda
ameaçando-me en-
tranhar regressiva-
mente ao avesso da
sequência natural
que nos exige nas-
cer, crescer e morrer
(com sorte encontrando
consorte com quem
reproduzir nossa miséria)
Amo-te a cada pequena morte
com que me inspiras cadaver-
so com que me transpiras
no corpo o reverso dum morto
ou te ao menos adias-me tal
TÃO POUCO II
Mero, resto-me
ou nem isso:
metafísico
Quero-te
Ou quase:
fantasio
Penso-me
ou nem isso:
iludo
Nisso me olhas
e me quase vês
ao projetar-me
desejando-te
como desmesurada
supões que deverias
demais gostosa
ser
Para mim que meramente
como quimericamente
como-te
és
*Régis no Facebook: Clique aqui!
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Dois poemas
Solo
Coreógrafa
de
carências
danço
só
na
(de)cadência
que
bem
me
apraz
Meu
descompasso
afugenta
parcerias...
Agustin Bejarano
Coisas e
nadas
Como
sorver o oco
e sentir gosto
no insosso?
no insosso?
E
experimentar sensação
num intimo de nada?
Quem
há de ter prazer no
recôndito
da cava?
Imensurável a peripécia
de saciar fome
digerindo
vácuos
e
ausências.
Rossana Masiero
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
A POÉTICA PRIMOROSA DE WILSON NANINI
reciclagem
com
a nudez ao lado saber
dar
bom uso à insônia
suicídio
em
entressafra de afetos
semeiam-se
as pirambeiras
saudosismo
um
trem de ferro vai para
os
longes vai para a
fábula
vai para sempre
poesia
multicolorir
os ceróis, os sóis cruéis
me
põe a salvo? me põe como que
um
algo sedado: isso me basta?
enxame
de longe era quando
chegou perto não
era era
uma revoada
chegou perto não
era era
uma revoada
desejos
o
do rio, ser céu; o do céu, ser rio;
o
do pássaro, estar entre
poetave
eu, antes adaga, agora a-
ve para que onde houver fronteira
haja asa
eu, antes adaga, agora a-
ve para que onde houver fronteira
haja asa
poetave II
passo a catástrofe da passagem
de um a outro instante me indagando:
“derivo de que ave?”
passo a catástrofe da passagem
de um a outro instante me indagando:
“derivo de que ave?”
Drummond me desrinbadiou
cda (reinterpretado)
essa pedra no meio do caminho
essa pedra no meio do caminho
se não fosse pela fadiga
se não fosse pela fadiga
eu chegaria ao outro lado dela
eu chegaria ao outro lado dela
através de um túnel
através de um túnel
esculpido
(inventado)
com a minha própria língua
essa pedra no meio do caminho
se não fosse pela fadiga
se não fosse pela fadiga
eu chegaria ao outro lado dela
eu chegaria ao outro lado dela
através de um túnel
através de um túnel
esculpido
(inventado)
com a minha própria língua
- Wilson Nanini-
Para
ler mais o poeta vivo clique AQUI.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Marianas (1)
Atualmente a poesia de três Marianas me encantam. Hoje publico a primeira: Mariana Campos - buhobranca
hoje eu estou às avessas,
mais poeta do que nunca.
mais poeta do que nunca.
exercícios de releitura de ana c. c.
não era casa
jardim
pessegueiro perseguindo
invisível
porta sem janela
gatos-preguiça
esvaziando-se na mudança
travesseiro
tranquilo e desinfetante
a gente acha que tudo,
e não descansa ainda que.
mas a partir de hoje eu quero sugerir:
uma coisa.
e não descansa ainda que.
mas a partir de hoje eu quero sugerir:
uma coisa.
a hora parou em 19h27. minha melhor amiga me sorriu enquanto todos ao
redor pensavam em português e escreviam:
- hay mucho que decir,
continuando calados.
a manga, camisetas verdes, o olhar maduro e as pernas insistentes em se roçar.
eu tinha medo de olhar no relógio porque acabei de descobrir a hora de minha morte. mas os narizes arfando ainda davam a sensação de ser-noite, fria-invernal embora ninguém explicasse o calor do coração, a menstruação lenta.
um cão me contornou os seios, recebi cartas.
nunca respondi. desgosto adeuses.
até breve. até breve. até breve. marcavam os ponteiros do tempo, laceado de tanto espreguiçar-me,
esticando o que me restava.
esticava o tempo e via os olhos do menino e outro menino por detrás dos olhos do menino enquanto pensava o que teria para jantar na casa dos meus pais, se minha mãe cozinhasse as palavras:
abóbora, casadinho.
papilas e cheirá-las junto aos cães, farejando o mistério entre dois azulejos. o céu,
uma ave passou detrás dos olhos da nuca e eu me perdi. eu sempre me perdia e aves sempre passavam. era mais natural do que se pensava, essas aves pensando.
o relógio voltou a andar. era natural.
- hay mucho que decir,
continuando calados.
a manga, camisetas verdes, o olhar maduro e as pernas insistentes em se roçar.
eu tinha medo de olhar no relógio porque acabei de descobrir a hora de minha morte. mas os narizes arfando ainda davam a sensação de ser-noite, fria-invernal embora ninguém explicasse o calor do coração, a menstruação lenta.
um cão me contornou os seios, recebi cartas.
nunca respondi. desgosto adeuses.
até breve. até breve. até breve. marcavam os ponteiros do tempo, laceado de tanto espreguiçar-me,
esticando o que me restava.
esticava o tempo e via os olhos do menino e outro menino por detrás dos olhos do menino enquanto pensava o que teria para jantar na casa dos meus pais, se minha mãe cozinhasse as palavras:
abóbora, casadinho.
papilas e cheirá-las junto aos cães, farejando o mistério entre dois azulejos. o céu,
uma ave passou detrás dos olhos da nuca e eu me perdi. eu sempre me perdia e aves sempre passavam. era mais natural do que se pensava, essas aves pensando.
o relógio voltou a andar. era natural.
ainda falta muito?
já chegamos?
do banco detrás -
eu perguntava a papai, sobre a vida.
preciso fazer xixi!
já chegamos?
do banco detrás -
eu perguntava a papai, sobre a vida.
preciso fazer xixi!
um bilhete por debaixo da porta:
está me ouvindo rabiscar esse poema?
é bom ter o coração, assim, sangrando de alegria.
está me ouvindo rabiscar esse poema?
é bom
é bom ter o coração, assim, sangrando de alegria.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
A instigante poesia de Alberto Lins Caldas
“faço livros como quem cria contradições, cria
nós, solta bombas no meio da rua. qualquer coisa q pareça o contrário disso
não é minha literatura.
e em tudo o q exerço minha “visão de mundo” exerço como um deslocado, um ser estranho q vive pra minar o existente, o institucional, o estabelecido: jogo pra quebrar as regras, por não poder estar em outro lugar, outro tempo: aqui e agora é o campo e o momento da luta. por isso não pertenço a nenhum lugar, seja cidade, região, país ou mundo. escrevo como respiro: contra o horror”
e em tudo o q exerço minha “visão de mundo” exerço como um deslocado, um ser estranho q vive pra minar o existente, o institucional, o estabelecido: jogo pra quebrar as regras, por não poder estar em outro lugar, outro tempo: aqui e agora é o campo e o momento da luta. por isso não pertenço a nenhum lugar, seja cidade, região, país ou mundo. escrevo como respiro: contra o horror”
Alberto Lins Caldas
*
● lingua gente e corpos doentes ●
● esses mesmos os de sempre ●
● me empurraram pro navio ●
● isso faz mais de vinte anos ●
● sem olhar pra tras ou pra frente ●
● sem querer nada apenas fugir ●
● sem precisar chegar ou partir ●
● apenas algo entre os dentes ●
● alem e depois do tempo ●
● me escondendo ali por dentro ●
● comendo lixo com os ratos ●
● vivendo o medo pelas brechas ●
● degustando a loucura de todos ●
● a fome dos famintos e a dor ●
● de todos e de todos o suor ●
● esse q jorra sempre pra outro ●
● descobriram e me jogaram ●
● nas ondas gordas desse mar ●
● sem uma balsa sem nada ●
● apenas as ondas e a saliva ●
● ate essa terra isso desolado ●
● q de tão triste sempre me escapa ●
● e o pior o pior de tudo ja e agora ●
● é q não ha mais sonho ou coragem ●
*
![]() |
| George Georgiou |
*
● as abelhas chegaram hoje cedo ●
● e ate agora zumbem ao redor ●
● da cabeça de bronze da estatua ●
● aqui no centro da nossa cidade ●
● e algumas ja entraram pelo ouvido ●
● e aos poucos vão sumindo la dentro ●
● sabemos q essa colmeia violenta ●
● vai nos alimentar por muitos anos ●
● depois q a fome começar ●
● mas não temos segurança alguma ●
● q enlouqueçam e vão embora assim ●
● sem avisar nos deixando todos ●
● na mais desesperada fome e raiva ●
● se bem q devemos esquecer isso ●
● devemos dançar e rir e gozar ●
● acordar as fogueiras e dançar ●
● por muito tempo teremos mel ●
● e a triste presença das abelhas ●
*
![]() |
| Raymond Depardon |
*
● esse punhal dente de sabre ●
● esse punhal carrego entre costelas ●
● bem enterrado entre pulmões e coração ●
● isso mais ou menos ha doze anos ●
● quando lutamos e perdi ●
● exausto ate hoje inda sem saber ●
● havia sempre matado tigres e chacais ●
● principalmente em noites como aquela ●
● sob as luas sangrentas entre os rebanhos ●
● e foi vencido porq esse é o caminho ●
*
| Gerardo Montiel |
*
● assim ficamos sabendo ●
● q kavafis ●
● o arpoador negro ●
● q chegou depois da sopa ●
● matou ●
● entre o nascer●
● e o por do sol ●
● quinze baleias ●
● porq o tempo permitia ●
● tambem porq ●
● naquele mundo ●
● havia homens e arpões ●
● e a vida era tão maior ●
● q não se pensava nisso ●
*
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