PÁGINAS

terça-feira, 20 de novembro de 2012

DOIS POEMAS DE FRED CAJU

 

ORAÇÂO PARA AS PAREDES


Todas as manhãs virava um padre,
ele era feliz com a sua loucura.
Quando o sol despertava seu dia,
ele incorpora sua outra postura.
Gritando que salvaria o rebanho,
lia alto as sagradas escrituras.
Ninguém queria ouvir da palavra,
logo, bradava em elevada altura.
Falava aos seus fiéis-fantasmas,
dizia que sabia qual era a cura.
O passado do velho era sinistro,
por isso buscava a sua redenção.
Faz a reza para as suas paredes,
o seu público era só imaginação.
Esse senhor não via outra saída,
necessitava se dedicar à oração.
Dizia ao seu público imaginário:
“deus é a nossa única salvação!”
E assim, o padre esquizofrênico,
marcha sozinho com a sua missão.



SEM MAQUIAGEM


Dizem que ele é muito forte,
que nem tinha medo da morte.
Mas o seu coração não é de aço,
se escondendo atrás da piada,
nem o seu ofício de palhaço
autoriza alguma risada.

— Quando o seu rosto está pintado,
como o poeta, é amado.
Nunca teve muitos amigos,
só a sua sombra anda consigo.
Dividindo a vida meio a meio:
um lado vive na solidão
o outro lado, no riso alheio;
são dois homens em um coração.
— Sem a maquiagem é anônimo,
como o poeta sem pseudônimo.

O palhaço, mestre do riso,
era movido por sorrisos.
Mas com uma piada sem graça,
fica reduzido ao ridículo;
sente uma dor que nunca passa,
como pancada no testículo.
— O palhaço mostra suas cores,
como o poeta, as suas dores.

O palhaço ganha coragem
quando está com a maquiagem.
Ele não sente nenhum medo,
parece ser uma pessoa pura
que não esconde seus segredos;
faz do seu trabalho, sua cura.
— Ele só sabe trabalhar,
como o poeta, só chorar.

Quando põe o nariz vermelho,
sonha, encarando o espelho.
Às vezes pensa em desistir,
mas pensa ser tarde demais,
pois se pararem de sorrir,
ele não ficará em paz.
— Ele tenta deixar de ser,
como o poeta, se perder.



Para ler mais de Fred Caju acesse seu blog  SÁBADOS DE CAJU



 

sábado, 17 de novembro de 2012

3 belos poemas de Lou Vilela



SEM HORA

O poema chegou-me pronto, vermelho
Trazia um brilho no olhar
E nos amamos, tocados
Pela fúria do instante


POESIA A MAR ABERTO

Ela alimentava o meu vício
: eu insistia, insistia.
Mal-acostumado, embriagado
repetia-me – um fraco, apaixonado.

Para tê-la em meus braços,
sentia o ópio, pulsava o caos,
vasculhava instantes,
amor sem igual.

Já não importava pagar, ou ser pago;
o risível, o onanismo dos troncos
às copas das árvores.

A louca forjava-me
atitude, possibilidades
: eu insistia!


TARDE GRIS

não me tomes por triste quando relato
o meu, o teu - o nosso cansaço
entrecortado
animosidade gutural

não me tomes por triste
só poeira, olhar alérgico
descompasso
trans.formação

não, não me tomes por triste
cada veio, cada rasgo provém
de um tempo que esfola
e abriga


Lou Vilela é poeta, administradora e especialista em logística estratégica. Edita o belíssimo blog "Nudez Poética" - http://nudezpoetica.blogspot.com.br/

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Poemas de Lalo Arias



DORMIR AO RELENTO

De onde vem
essa doce lembrança
e o simples hábito
de despertar feliz
neste tempo
de ausência
de misericórdia
e de uma palavra
com 4 letras?
De onde vem
a sensação
de que o vento
a passagem dele
corta e afaga
magoa e acolhe?

Pense no vento,
digo a ela,
ele é poderoso
só por ser invisível

DEUS MORREU ONTEM À NOITE

Com a lua cheia
entre os dentes
e eu te pergunto:
você poderia tocar
meu centro?
No lugar onde estamos
tudo virará pó
Sou um homem
pobre
meus sapatos pesam
poderia estar descalço
poderia estar nu
Mesmo assim você me tocaria?
Se eu fosse verdadeiro
seria só alma
Estou ao teu lado
e você não me vê
Não vou perguntar
outra vez
(fevereiro, 2012)

Posted 10th February by Lalo Arias
Labels: Deus Morreu Ontem à Noite
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ALÉM DA PASÁRGADA

Como se houvesse algo realmente importante
pra dizer
Como falar do cansaço
e do terror?
Mas é bom lembrar que também vi paisagens
e uma era mais perfeita que a outra
porém
elas cambiavam eternas
Diferente do que acontece
nesta vida
Não falo de toda a vida
mas do tempo de espera
– como este ar congelado
em pleno verão
Vou sentir falta
de sentir
Estarei perto de quem amei?
Gostaria de saber
Gostaria que alguém me dissesse algo
a respeito

encontro dos poetas insones
ENCONTRO DOS POETAS INSONES

Numa noite
cheia de tédio e heroísmo
desespero, saciedade
caminhamos
mais uma vez
sob chuva
e fomos a chuva
Em nome do amor, da rebelião
naquela noite clamamos sob o torpor
do vinho
e fomos o vinho
De um lado
ou acima
pouco importa
choveu e choveu
Um disse
estamos a salvo
Outro calou
mas sorriu
como se declarasse amor
mais uma vez
ao vento
E fomos o vento
Somos tantos
apaixonadamente plenos de raiva
e separação
Somos tantos
uma insígnia
ao lado de outra insígnia
estrela ao lado de estrela
Pouco importa
Declaramos guerra
à guerra
Mais uma vez
não estaremos a salvo

Mais da poesia de Lalo Arias AQUI


Seleção de Maria da Graça

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

José Agostinho Baptista

SILÊNCIO

Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.


EXCERTOS

«Nos tímpanos,
como um acorde desmedido,
a cava respiração dos desertos assola-te.
Contorces-te, quando me aproximo,
e benditos são os frutos do teu ventre, no oásis onde
amadurecem.
Mas não temos tempo.
Envelhecemos,
vamos e voltamos,
e ao irmos e virmos, somos a errância dos pés, entregues
à sua mecânica,
indiferentes aos pesares,
desfalecendo, retomando a marcha,
a estrada tantas vezes percorrida por uns olhos abertos
que já não vêem,
tão habituados a reter nas suas órbitas as paisagens do
desalento.»

José Agostinho Baptista

Nasceu a 15 de Agosto de 1948 na cidade do Funchal (Ilha da Madeira). Colaborou na imprensa, nomeadamente no Comércio do Funchal e mais tarde no República e no Diário de Lisboa, cujo suplemento "O Juvenil" o tornou conhecido como poeta. Desde então e ao longo dos dez livros já publicados, a sua poesia vem sendo reconhecida como uma dos mais originais e importantes na actualidade, como bem assinalaram, entre outros, António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral ou Joaquim Manuel Magalhães nos ensaios que lhe dedicaram. Simultaneamente, José Agostinho Baptista tem vindo a assinar diversas traduções de autores como Walt Whitman, W.B. Yeats, Tennessee Williams, Paul Bowles, Enrique Vila-Matas.http://www.jabaptista.com/

domingo, 11 de novembro de 2012

Do excelente livro Boneca russa em casa de silêncios, de Daniela Delias

Dentro


eu estava dentro do quarto
havia tanto dentro, você dizia
tantas portas e ruas e longes
como dias e horas e versos
apinhados de sede e de ontens

eu estava aqui dentro, você me ouvia?
boneca russa em casa de silêncios
antes do verbo, dentro da carne
meus tambores apontavam a direção

tão dentro, tão dentro, você repetia
e eu naquele vestido cor de arco-íris e espera
sandálias vermelhas, vontades, pulseiras
poemas espalhados por todo o chão


Trilhos

eu falava sobre ontens e estrelas
e media a altura dos astros

queria saber desses longes
onde para sempre e antes
as cinzas de agosto
não tocariam os meus sapatos

você falava sobre caminhos de ferro
e subvertia a lógica dos lábios

já me sabia vento, versos, palavra
queria agora e para sempre e antes
as horas de setembo
e os beijos intermináveis

sábado, 10 de novembro de 2012

Romance




Existiram pela tarde
e nas lagoas da noite
sentiram o cheiro que tinham
e iluminaram a pele
antes da aurora marcada.

Cantaram hinos
arfaram
as bandeiras da alegria
todas as noites do ano
tremendo no calendário.

Inexistiram
na noite sem aurora
nem lagoas
guardadas as bandeiras
refeito o calendário.



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

IMAGENS DO MUNDO FLUTUANTE


IMAGENS DO MUNDO FLUTUANTE
(Josely Vianna Baptista)

RIVU

A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva.
No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.



SCHISMA

Cobre se refletindo a ouro-fio nos olhos:
sem pano nem cordame, os móbiles oscilam, barcos
sem rumo, a esmo (desertos), rio adentro
(no leito cambiante), sem remo ou vela
ao vento. Vogam no entremeio, rio afora,
no linde (os sonhos) - superfície.
Nuvens e água, pênseis, a ouro-fio nos olhos.
Inverso de mortalha, os lençóis correm em álveos:
os barcos têm velâmens.



RESTE

Um vento anima os panos e as cortinas oscilam,
fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol passeia
a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz
vai desenhando as coisas: tranças brancas no espelho,
relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus volteios
curvos, vidros ao rés do chão reverberando, réstias.
Filamentos dourados unem o alto e o baixo
- horizonte invisível, abraço em leito alvo:
velame de outros corpos na memória amorosa.



VELU

Lúcido pergaminho, pele argêntea, de prata
(bolsa d'água, placenta), nas raízes aéreas. A cera
e a polidez da pétala encoberta: brácteas
que se abrem (túnica) e desabrocham: filandras
e nervuras na placidez selvagem -  flor
e acontecimento que se desdobra em flor.
(Velâmens, em camadas, evoluem no ar.)
A gravidez sem peso dos pecíolos no limbo.



Josely Vianna Baptista, poeta paranaense (Curitiba, 1957), classificou-se em 3.º lugar no Prêmio Jabuti 2012, na categoria Poesia.

Livros de poesia: Ar (1991), Corpografia (1992) e Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, no álbum de arte homônimo de Maria Angela Biscaia, 2001).

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Festa


Cada palavra tem seu espaço.

Mesmo o silêncio
tem espessura de homem.

Os tambores escutam
em surdina
a entrega do corpo.

Eis o cenário
onde a palavra se renova

pesando eternidade.


Prisca Agustoni


sábado, 3 de novembro de 2012

2 poemas de Alisson da Hora


"Pequena nota de silêncio e desalento"

o silêncio se veste com esse olhar emoldurado
em cada gota que baila nos vidros
nas quedas em asfaltos que suspiram para o ar
o vapor dos dias em mormaço
é o silêncio que atapeta os vãos dos ônibus
que carregam vários silêncios agoniados

o desalento desce escadas
às vezes fumando cigarros imaginários
às vezes matando inimigos invisíveis
quase sempre (re)vendo frustrações assombrarem
os corredores as lápides os fones de ouvido
que berram canções desamorosas

mas até elas se calam e também se vestem de silêncio

a confusão é calada
a cabeça que se encosta na janela pensativa é calada
escondidas numa trama de acordes e de fugas
a decepção é um calar-se um sibilar de cansaço
destruído

a porta fechada
as imagens ao longe
os sonhos que pedem desculpas por terem surgido
e se vão por entre os dedos
mesmo que os dedos inutilmente tente segurá-los
mesmo que os lábios em movimento num cantar surdo
tente encaixotá-los com vento no peito desarmado de amparo
se vão
em vão

até a inutilidade mais tola do dia se fantasia de calar-se

o suspiro que abre o cadeado mutilado da casa
que em blecaute espera os pés baterem em retirada
para a morte da noite que também vira as costas
numa prece de egoísmo e de enfado
resmunga que o enumerar palavras é burrice
que o gritar dos fones deve acabar
que até o lavar as mãos deve pedir às torneiras
um minuto de respeito
que até o coração repense o seu tremer
para que nos momentos do deitar
os pensamentos possam se fechar sem que isso perturbe
o esquecimento necessário para encarar um outro dia
em silêncio



"Museu do inconsciente"

às vezes meus corredores se esvaziam de olhares
às vezes nenhuma luz vai dizer o que enxergo
tampouco minhas mãos vão sentir o que eu toco
nem sei se sentir é tão válido quando tudo é tão tosco

detesto as repetições, mas as faço
faço-as porque é necessário para o caminho render
faço-as porque é complicado imaginar uma seringa
no lugar dos calendários e dos cobertores
faço-as porque minha vida chega a ser uma prece
e uma ladainha que não recito mais
faço-as porque é preciso fazê-las
as portas que se fecham estão repletas de analgésicos
quase sempre minhas janelas são algum tipo de remédio
que recusam algum brado terapêutico
e ele também é necessário
embora eu o guarde

o guarde como notívago repensa o sono
o trate como consolo e como algo inevitável
como a passagem de um cometa
como um gemido esmagado por unhas tontas
como alucinações que me fazem fantasma
como um labirinto coberto por cegos
e eu estava lá imaginando como é ser vidente
no olho do furacão
no pavilhão afastado onde ninguém pisa
onde úteros já não guardam mais aquelas esperanças
elas esqueceram-se de nascer
elas não precisam mais disso
e passam a ser um suspiro quieto no fim de tudo
que às vezes a gente raspa um despertar
e esse despertar guarda uma fúria desajeitada
uma tensa paz
que às vezes chamamos cansaço



Alisson da Hora nasceu em Recife/PE. É mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Publica habitualmente no blog: 


Leitura do poema "Museu do inconsciente":


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Duas variações de Régis Antonio Coimbra

TÃO POUCO I

Há muito no tão pouco
que trocamos tão
denso, intenso e fluido
Nos impele, hidráulico
no irrefreável curso
forçado e tão i-
lusoriamente livre

Pendes como fenda
ameaçando-me en-
tranhar regressiva-
mente ao avesso da
sequência natural
que nos exige nas-
cer, crescer e morrer

(com sorte encontrando
consorte com quem
reproduzir nossa miséria)

Amo-te a cada pequena morte
com que me inspiras cadaver-
so com que me transpiras
no corpo o reverso dum morto
ou te ao menos adias-me tal


TÃO POUCO II

Mero, resto-me
ou nem isso:
metafísico

Quero-te
Ou quase:
fantasio

Penso-me
ou nem isso:
iludo

Nisso me olhas
e me quase vês
ao projetar-me
desejando-te
como desmesurada
supões que deverias
demais gostosa
ser

Para mim que meramente
como quimericamente
como-te
és



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