1.
não sei verbalizar
o abismo
sei cair
dentro dele
como dois olhos que eu avisto e temo
e o chão se demora -
amor -
a tocar meus pés
2.
é uma cidade muito pequena
paratanta distância
é preciso
ir devagar
com os cuidados, meu pai
devagar com os cuidados
é uma cidade muito pequena
para caber tanta dor
Poemas publicados no blog da autora: Suave Coisa - Pra ser guardado.
"Guardados" só por gosto. Apenas e tão somente para celebrar a poesia. Viva a Poesia! Salve os Poetas!
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Dois poemas de Mariana Botelho
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
O incenso do verso no verbo: Karinne Santiago
“Me inspiraram a cortejar as
palavras”
http://poeticaria-ensaiodaspalavras.blogspot.com.br/
http://poesiaantimonotonia.blogspot.com.br/
BAILARINA INDIANA VERSA MANTRA SOBRE ANJOS
minha solidão encostou-se à sua
achei engraçado nosso molde
diferentes versões sobre amar
aninhada entre vozes e novelas
debruço-me em seu peito
&&&&&&&&&&
em si: a solidão
fulgura: em mim inaugura só
impregnada de mim e singular eu
sopro restrito em canto uníssono
monólogos de reflexos únicos
apenas sou, digo-me...
dei-me absorta
a passear-me povoada
numa solidão de próprio
logo me defronto
dei-me absorta
a passear-me povoada
numa solidão de próprio
logo me defronto
&&&&&&&&&&
meus olhos não deslizam só verdades
confessam a fome dos dias solitários
reascendem antigos brios e invadem
vestígios de amores desencontrados
&&&&&&&&&&
nua antecipo em
suas mãos
as cicatrizes que me fazem
o arrepio da carne, a cerne
do ventre que me remete
à bela liberdade dos seios
as cicatrizes que me fazem
o arrepio da carne, a cerne
do ventre que me remete
à bela liberdade dos seios
&&&&&&&&&&
a menina não
chorava pétalas
não caia dos olhos tal maciez
era um cravo
vestígio de morte
não caia dos olhos tal maciez
era um cravo
vestígio de morte
era um espinho
ferido
ferido
terça-feira, 20 de novembro de 2012
DOIS POEMAS DE FRED CAJU
ORAÇÂO PARA AS PAREDES
Todas as manhãs
virava um padre,
ele era feliz com a sua loucura.
Quando o sol despertava seu dia,
ele incorpora sua outra postura.
Gritando que salvaria o rebanho,
lia alto as sagradas escrituras.
Ninguém queria ouvir da palavra,
logo, bradava em elevada altura.
Falava aos seus fiéis-fantasmas,
dizia que sabia qual era a cura.
O passado do velho era sinistro,
por isso buscava a sua redenção.
Faz a reza para as suas paredes,
o seu público era só imaginação.
Esse senhor não via outra saída,
necessitava se dedicar à oração.
Dizia ao seu público imaginário:
“deus é a nossa única salvação!”
E assim, o padre esquizofrênico,
marcha sozinho com a sua missão.SEM MAQUIAGEM
Dizem que ele é
muito forte,
que nem tinha medo da morte.
Mas o seu coração não é de aço,
se escondendo atrás da piada,
nem o seu ofício de palhaço
autoriza alguma risada.
— Quando o seu rosto está pintado,
como o poeta, é amado.
Nunca teve muitos amigos,
só a sua sombra anda consigo.
Dividindo a vida meio a meio:
um lado vive na solidão
o outro lado, no riso alheio;
são dois homens em um coração.
— Sem a maquiagem é anônimo,
como o poeta sem pseudônimo.
O palhaço, mestre do riso,
era movido por sorrisos.
Mas com uma piada sem graça,
fica reduzido ao ridículo;
sente uma dor que nunca passa,
como pancada no testículo.
— O palhaço mostra suas cores,
como o poeta, as suas dores.
O palhaço ganha coragem
quando está com a maquiagem.
Ele não sente nenhum medo,
parece ser uma pessoa pura
que não esconde seus segredos;
faz do seu trabalho, sua cura.
— Ele só sabe trabalhar,
como o poeta, só chorar.
Quando põe o nariz vermelho,
sonha, encarando o espelho.
Às vezes pensa em desistir,
mas pensa ser tarde demais,
pois se pararem de sorrir,
ele não ficará em paz.
— Ele tenta deixar de ser,
como o poeta, se perder.Para ler mais de Fred Caju acesse seu blog SÁBADOS DE CAJU
sábado, 17 de novembro de 2012
3 belos poemas de Lou Vilela
SEM HORA
O poema chegou-me pronto, vermelho
Trazia um brilho no olhar
E nos amamos, tocados
Pela fúria do instante
POESIA A MAR ABERTO
Ela alimentava o meu vício
: eu insistia, insistia.
Mal-acostumado, embriagado
repetia-me – um fraco, apaixonado.
Para tê-la em meus braços,
sentia o ópio, pulsava o caos,
vasculhava instantes,
amor sem igual.
Já não importava pagar, ou ser pago;
o risível, o onanismo dos troncos
às copas das árvores.
A louca forjava-me
atitude, possibilidades
: eu insistia!
TARDE GRIS
não me tomes por triste quando relato
o meu, o teu - o nosso cansaço
entrecortado
animosidade gutural
não me tomes por triste
só poeira, olhar alérgico
descompasso
trans.formação
não, não me tomes por triste
cada veio, cada rasgo provém
de um tempo que esfola
e abriga
Lou Vilela é poeta, administradora e especialista em logística estratégica. Edita o belíssimo blog "Nudez Poética" - http://nudezpoetica.blogspot.com.br/
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Poemas de Lalo Arias
DORMIR AO RELENTO
De onde vem
essa doce lembrança
e o simples hábito
de despertar feliz
neste tempo
de ausência
de misericórdia
e de uma palavra
com 4 letras?
De onde vem
a sensação
de que o vento
a passagem dele
corta e afaga
magoa e acolhe?
Pense no vento,
digo a ela,
ele é poderoso
só por ser invisível
DEUS MORREU ONTEM À NOITE
Com a lua cheia
entre os dentes
e eu te pergunto:
você poderia tocar
meu centro?
No lugar onde estamos
tudo virará pó
Sou um homem
pobre
meus sapatos pesam
poderia estar descalço
poderia estar nu
Mesmo assim você me tocaria?
Se eu fosse verdadeiro
seria só alma
Estou ao teu lado
e você não me vê
Não vou perguntar
outra vez
(fevereiro, 2012)
Posted 10th
February by Lalo Arias
Labels: Deus Morreu Ontem à Noite
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ALÉM DA PASÁRGADA
Como se houvesse algo realmente importante
pra dizer
Como falar do cansaço
e do terror?
Mas é bom lembrar que também vi paisagens
e uma era mais perfeita que a outra
porém
elas cambiavam eternas
Diferente do que acontece
nesta vida
Não falo de toda a vida
mas do tempo de espera
– como este ar congelado
em pleno verão
Vou sentir falta
de sentir
Estarei perto de quem amei?
Gostaria de saber
Gostaria que alguém me dissesse algo
a respeito
encontro dos poetas insones
ENCONTRO DOS POETAS INSONES
Numa noite
cheia de tédio e heroísmo
desespero, saciedade
caminhamos
mais uma vez
sob chuva
e fomos a chuva
Em nome do amor, da rebelião
naquela noite clamamos sob o torpor
do vinho
e fomos o vinho
De um lado
ou acima
pouco importa
choveu e choveu
Um disse
estamos a salvo
Outro calou
mas sorriu
como se declarasse amor
mais uma vez
ao vento
E fomos o vento
Somos tantos
apaixonadamente plenos de raiva
e separação
Somos tantos
uma insígnia
ao lado de outra insígnia
estrela ao lado de estrela
Pouco importa
Declaramos guerra
à guerra
Mais uma vez
não estaremos a salvo
Seleção de Maria da Graça
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
José Agostinho Baptista
SILÊNCIO
Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.
Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
EXCERTOS
«Nos tímpanos,
como um acorde desmedido,
a cava respiração dos desertos assola-te.
Contorces-te, quando me aproximo,
e benditos são os frutos do teu ventre, no oásis onde
amadurecem.
Mas não temos tempo.
Envelhecemos,
vamos e voltamos,
e ao irmos e virmos, somos a errância dos pés, entregues
à sua mecânica,
indiferentes aos pesares,
desfalecendo, retomando a marcha,
a estrada tantas vezes percorrida por uns olhos abertos
que já não vêem,
tão habituados a reter nas suas órbitas as paisagens do
desalento.»
José Agostinho Baptista
Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.
Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
EXCERTOS
«Nos tímpanos,
como um acorde desmedido,
a cava respiração dos desertos assola-te.
Contorces-te, quando me aproximo,
e benditos são os frutos do teu ventre, no oásis onde
amadurecem.
Mas não temos tempo.
Envelhecemos,
vamos e voltamos,
e ao irmos e virmos, somos a errância dos pés, entregues
à sua mecânica,
indiferentes aos pesares,
desfalecendo, retomando a marcha,
a estrada tantas vezes percorrida por uns olhos abertos
que já não vêem,
tão habituados a reter nas suas órbitas as paisagens do
desalento.»
Nasceu a 15 de Agosto de 1948 na cidade do Funchal (Ilha da Madeira). Colaborou na imprensa, nomeadamente no Comércio do Funchal e mais tarde no República e no Diário de Lisboa, cujo suplemento "O Juvenil" o tornou conhecido como poeta. Desde então e ao longo dos dez livros já publicados, a sua poesia vem sendo reconhecida como uma dos mais originais e importantes na actualidade, como bem assinalaram, entre outros, António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral ou Joaquim Manuel Magalhães nos ensaios que lhe dedicaram. Simultaneamente, José Agostinho Baptista tem vindo a assinar diversas traduções de autores como Walt Whitman, W.B. Yeats, Tennessee Williams, Paul Bowles, Enrique Vila-Matas.http://www.jabaptista.com/
domingo, 11 de novembro de 2012
Do excelente livro Boneca russa em casa de silêncios, de Daniela Delias
Dentro
eu estava dentro do quarto
havia tanto dentro, você dizia
tantas portas e ruas e longes
como dias e horas e versos
apinhados de sede e de ontens
eu estava aqui dentro, você me ouvia?
boneca russa em casa de silêncios
antes do verbo, dentro da carne
meus tambores apontavam a direção
tão dentro, tão dentro, você repetia
e eu naquele vestido cor de arco-íris e espera
sandálias vermelhas, vontades, pulseiras
poemas espalhados por todo o chão
Trilhos
eu falava sobre ontens e estrelas
e media a altura dos astros
queria saber desses longes
onde para sempre e antes
as cinzas de agosto
não tocariam os meus sapatos
você falava sobre caminhos de ferro
e subvertia a lógica dos lábios
já me sabia vento, versos, palavra
queria agora e para sempre e antes
as horas de setembo
e os beijos intermináveis
eu estava dentro do quarto
havia tanto dentro, você dizia
tantas portas e ruas e longes
como dias e horas e versos
apinhados de sede e de ontens
eu estava aqui dentro, você me ouvia?
boneca russa em casa de silêncios
antes do verbo, dentro da carne
meus tambores apontavam a direção
tão dentro, tão dentro, você repetia
e eu naquele vestido cor de arco-íris e espera
sandálias vermelhas, vontades, pulseiras
poemas espalhados por todo o chão
Trilhos
eu falava sobre ontens e estrelas
e media a altura dos astros
queria saber desses longes
onde para sempre e antes
as cinzas de agosto
não tocariam os meus sapatos
você falava sobre caminhos de ferro
e subvertia a lógica dos lábios
já me sabia vento, versos, palavra
queria agora e para sempre e antes
as horas de setembo
e os beijos intermináveis
sábado, 10 de novembro de 2012
Romance
Existiram pela tarde
e nas lagoas da noite
sentiram o cheiro que tinham
e iluminaram a pele
antes da aurora marcada.
Cantaram hinos
arfaram
as bandeiras da alegria
todas as noites do ano
tremendo no calendário.
Inexistiram
na noite sem aurora
nem lagoas
guardadas as bandeiras
refeito o calendário.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
IMAGENS DO MUNDO FLUTUANTE
IMAGENS DO MUNDO FLUTUANTE
(Josely
Vianna Baptista)
RIVU A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos
suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o
tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva.
No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.
SCHISMA Cobre se refletindo a ouro-fio nos olhos:
sem pano nem cordame, os móbiles oscilam, barcos
sem rumo, a esmo (desertos), rio adentro
(no leito cambiante), sem remo ou vela
ao vento. Vogam no entremeio, rio afora,
no linde (os sonhos) - superfície.
Nuvens e água, pênseis, a ouro-fio nos olhos.
Inverso de mortalha, os lençóis correm em álveos:
os barcos têm velâmens.
RESTE Um vento anima os panos e as cortinas oscilam,
fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol
passeia
a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz
vai desenhando as coisas: tranças brancas no
espelho,
relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus
volteios
curvos, vidros ao rés do chão reverberando,
réstias.
Filamentos dourados unem o alto e o baixo
- horizonte invisível, abraço em leito alvo:
velame de outros corpos na memória amorosa.
VELU Lúcido pergaminho, pele argêntea, de prata
(bolsa d'água, placenta), nas raízes aéreas. A
cera
e a polidez da pétala encoberta: brácteas
que se abrem (túnica) e desabrocham: filandras
e nervuras na placidez selvagem - flor
e acontecimento que se desdobra em flor.
(Velâmens, em camadas, evoluem no ar.)
A gravidez sem peso dos pecíolos no limbo.
Josely Vianna Baptista, poeta paranaense (Curitiba, 1957), classificou-se em 3.º lugar no Prêmio Jabuti 2012, na categoria Poesia. |
Livros de poesia: Ar (1991), Corpografia (1992) e Outro
(em co-autoria com Arnaldo Antunes, no álbum de arte homônimo de Maria Angela
Biscaia, 2001).
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Festa
Cada palavra tem seu espaço.
Mesmo o silêncio
tem espessura de homem.
Os tambores escutam
em surdina
a entrega do corpo.
Eis o cenário
onde a palavra se renova
pesando eternidade.
Prisca Agustoni
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