PÁGINAS

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Poemas de Dade Amorim




 Os párias


Os anjos da cidade vêm da esquina
de praças e barrancos
surgem do chão de surpresa
já sem asas
estão nos botequins
dormem nos bancos de praça
nas calçadas.

Sofrem de fome em bandos
sem ter aonde levar
seu cheiro
sua revolta.

Os anjos da cidade nos sitiam
deuses sem brilho
feitos de folhas secas e unhas.
São flébeis e nos avisam
com os olhos fugidios
:
o inimigo vem de qualquer lado.

Às vezes velam os que
por suas mãos
restaram mortos
e riem
diante desses anjos desfolhados.

Um anjo desossado ingressa às vezes
no sangue de quem passa
e deita em suas horas e adormece
de um sono escuro opaco de lembranças.

Os párias da cidade todo dia
geram outros anjos feitos
de fumo e cocaína e cola e craque.





Maria

 

 

Maria está diferente
pensa em flores
e elas chegam
ouve vozes
ri atoa.

O que acontece com ela
é uma voz no nextel
e Maria perde o freio.

O dia vem
de repente
antes do sol acordar
porque o poder de Maria
ilumina o mundo em volta.


 

Em família

 

Os pais os olhavam
tristes
como quem sofre
dores muito antigas
sonhos pisados
e um atavismo de culpas
sem remédio.

Na hora mais quente do dia
a casa em desalinho
longe do pai
a mãe lavando a louça
deixaram os brinquedos no porão
tentando salvar a vida
mais para lá do portão.

Levavam
olhos de choro
as dores já tão antigas
dentro da pele.







domingo, 9 de dezembro de 2012

Dois poemas de Adrianna Coelho


GESTOS


os poemas que ficaram
nos meus olhos
ainda ardem

esfrego a poesia
com a palavra
"choro"



CONTEXTO



recita tuas águas
e brasas
e te condenso

nos meandros
contornos e entremeios
te margeio

em teus vales
horizontes e montanhas
desaprumo

só em teus ventos
me refaço
duna



Poemas de Adrianna Coelho disponíveis no blog Metamorfraseando

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Poemas de Jayme Ferreira Bueno


TERRA NATAL

Não se nasce em um lugar.
Nascemos na vida.

O lugar de nascimento
Não é apenas uma paisagem na memória.

São os pais,
os irmãos.
São pessoas,
amigos.

É a infância,
o despertar para os sonhos,
pequenas e grandes conquistas:
as primeiras lições de amor e de sofrimento.



A GRANDE NOITE

A grande noite se aproxima,
Árvores, luzes,
Vinho, pão, mel, frutas maduras.
Aguarda-se uma visita.
Ouvem-se cânticos de louvor.
A grande noite se aproxima.

A noite chega plena de mistério,
Acendem-se luzes,
Estouram fogos,
O aguardado chega
E com ele a paz.
A noite chega plena de mistério.

É madrugada!
Novo dia raiará.
O brilho do sol ofuscará os olhos dos recém-acordados,
Mas o mistério da noite
Continuará a embalar os espíritos,
Que, agora, repousam em paz
E em harmonia com o universo.



O PRINCÍPIO E O FIM

Um pequeno lago azul
Com águas calmas
E um barco com todos os sonhos
Suavemente a navegar

Um imenso oceano escuro
Com águas encapeladas
E um cargueiro com tudo da vida
Abruptamente a naufragar






quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Três poemas de Tania Anjos

Delicado


De tão delicado o viver
Parece sopro de flauta doce
Passos de não acordar bebê
Sonho bom em sono solto
De tão delicado o viver
Parece fio de cabelo
branco
Na cabeça de amigo de infância

[03.11.2011]




Minha busca é por essências:

as perguntas certas de Quintana;
o invisível de Exupéry.

No mais, qualquer outro achado é pedra:

inesquecível - como a de Drummond.
De serventia - como as de Coralina.

Bom é não me desfazer de nada!

...

Soube-me peregrina.

[06.05.2010]



Sou mais livre agora
quando agradar ou desagradar
é tão verdadeiramente desimportante quanto
aquele medo tolo de ser sozinha.

Mantenho o passo, a fé e a esperança.
[ E certo orgulho infame de ter me arrependido pouco
 – quase nada.

[15.11.2011]


Poemas de Tania Anjos disponíveis no blog No Rastro da Poesia...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Mulheres líquidas II

Imagem: Yan


A mulher quer o amor
como resgate
de si

arqueia-se com o empuxo

o homem deixa solto
o molinete

indefinidos metros de fio
invisível
enrolam-se em torno da mulher
quando a imagem dela
o hipnotiza, só

enquanto ela for mistério

depois algo a puxa para baixo

o homem deixa-a escapar
entre os dedos rijos

o fio torna-se espessa corda
comprimindo-lhe o ventre

dentro dela
algo é sensivelmente leve
ainda assim, afunda-a
cheio de ar


(Lara Amaral)


Leia os outros poemas da série "Mulheres líquidas": I e III

sábado, 1 de dezembro de 2012

Dois textos de Joelma Bittencourt


A meus amigos poéticos

*Argúcia de voz diante desejo de infinito*

acalanto
de lira
em sufoco de pele

sopro
lúdico
em métrica nua

dossel
de versos
adornam-se as mãos

o que a voz não faz
para ser tempo?




*Argúcia de voz diante ausência de Vênus*

se escasseia a companhia
canta-se o prenúncio
das solitudes

se fraqueja a pauta
canta-se o silêncio
nos entre vãos dos olhos

se não há íntimo que valha lira
canta-se o lustro
da madrepérola

porque a concha
também serve para adornar

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

TEXTOS TRANSFIGURADOS DE JOELMA BITTENCOURT


Uma palavra
sem pena
não faz poema


Tantas sobras
atravancando
caminhos:

passarinhos
passarinhos
limpem o chão!


Somos ínfimos demais
para certos lugares?

Repara! 
há lugares imensos
cabendo na gente.


Palavra

é rio sem água

e se corre

e deságua
é por força
de um olhar


Das tantas vezes
que me perguntaram
respondi: sou não...
mas há em mim quem duvide.


O bom poema
é aquele que varia
conforme os humores!


Caro Leminski
caso não saiba
aviso que o bicho alfabeto
agora tem vinte e seis patas
ou quase


(Joelma Bittencourt)


* Para ler mais a poeta de mão cheia, clique AQUI.



Fala- Secos & Molhados

terça-feira, 27 de novembro de 2012

PERGUNTAS SEM RESPOSTA


 

...Se pergunto às pedras elas me dizem de ser pedras, se pergunto a ti não obtenho respostas...

 

Por que querer-te

Se partes em tardes

E partes nu

Das partes que fomos?

 

Por que querer-te

Se me quebras as asas

E o encanto de uma vez só?

Se me soltas em pleno vôo

Sem dó?

 

Por que querer-te

Se teus olhos só dizem

Passados aos meus?

Se ficaste na quietude

De um simples adeus?

 

Passaram-se os dias e o encanto passou junto....

É impossível olhar para o silêncio da vida, e não perceber os sonhos todos diluídos em noites sem estrelas.

Nem um de nós lembrou de descobrir estrelas afastando nuvens, e nem soube deixar nesgas de céu adentrar, por frinchas, a vida.

É duro constatar que lá longe no caminho houve uma desistência, porque havia espinho e os pés foram tolos o bastante para não pisarem feridos. Tivessem eles  mostrado que também se caminha em carne viva.

Agora haveríamos de contar estrelas num céu descoberto e nem só pedras  me responderiam de ser pedras.

Tu também me reponderias, de ter sido sonho! 

 

Lázara papandrea

domingo, 25 de novembro de 2012

Dois poemas de Zenilda Lua


Com coração sertanejo na terra de Cassiano Ricardo, Zenilda Lua faz toda prosa ficar poesia.

1- 
Cuidei da falta tua
gota a gota
sol ante sol
vesti-me de intervalos
oferta, vigília
e continuei cuidadosa
aguardando o término
dessa sua licença de mim...


2- 
Chegou o tempo do abrandamento
As pedras se dizimaram dando lugar as perolas
Não haverá mais febre, lacunas, desencanto
Só pólen, cítara e carruagem de desejos recíprocos
Nossas lembranças serão idênticas
E toda ardência apascentada
Tua certeza; minha homilia
Minha falta de rima, a concretude da poesia
Pra tua alma ágape.


Para saber mais sobre a autora acesse o blogue: http://zenildalua-alfazema.blogspot.com.br/