PÁGINAS

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

3 Poemas de Daniela Delias


A dança

das pedras
diremos das pedras outra vez
dos pés e do limo
até que tudo reste ínfimo
e castas palavras dancem nuas
sob um céu vermelho-vivo

de nossa sede
não diremos

nem das noites em que vens
e farta de não ser
sangro em tua língua
caminho tuas costas


Azulejos

não dançamos aquele blues
nem daquele amor 
(de morrer tambores 
arrebentando o peito)
morremos

ontem reparei nos azulejos
nos respingos de tinta verde
sobre a pedra do alpendre

pensei em comida, correio
no preço do pão e das flores
no sol que lambe minha carne
na cor que cobre meus cabelos

é tão clichê morrer de amor
e nem dançamos aquele blues


Zepelim

eu poderia ser Alice
lábios cor-de-fim-do-mundo
atravessando o oceano
você veria um zepelim

eu poderia ser Alice entre tulipas
Amsterdam, tarde de outubro
você diria Rosa, Violeta
amor em mim, nome de flor

eu poderia ser Alice em seu quarto
ou num hotel à beira-mar, ao sul do mundo
você diria aqueles nomes absurdos
Rosa, Alice, Violeta, amor em mim
meu Zepelim ao sul do mundo

eu poderia ser Alice
e morar em seus versos

sábado, 15 de dezembro de 2012

Os afetos trazem-me as palavras...


E choro e rio e me deixo sentir somente... Tens a capacidade intrínseca de transbordar desejos... Tantos quantos em tuas telas regozijas... Soltas ferozes gritos de aventuras e dor para logo a seguir mostrar caminhos doces... Colores de vermelho teu fundo, teu emblema, teu coração apaixonado que é, por nossa humanidade... E assim te expões, expões a nós, reféns que somos desta vida bela...
                                                                                                                                                                                                               29/8/2012

Ao amigo Antonio Veronese

Antonio,
 dos rostos da agonia,
 das faces da fantasia,
 dos olhos de querer mais...

Antonio,
 das  dores de todos nós,
 dos sonhos mais verdadeiros,
 das  sedes escancaradas!

Antonio,
 Brasileiro de ontem,
 francês do hoje,
 do mundo ,enfim!

Antonio,
 que o Brasil deixou sair,
 mas que entranhado está em todos nós!!
                            
                                                                    Num destes outubros...


Atitude e sensibilidade

Atitude palavra forte porque requer sair da zona de conforto e ver-se de frente com a realidade, tomar pé da situação e seguir!!
Atitude, palavra forte porque requer olhar nos olhos das pessoas, sentir-lhes os anseios e ir em frente!
Atitude, palavra forte porque diz de colocar na estrada determinação, comprometimento e ação!!
              e,
Sensibilidade, ah! Sensibilidade tem a ver com deixar o afeto vir de encontro sem reservas, somente com a vontade de sentir e poder retribuir com ATITUDE!


Graça de Souza Feijó

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Oração

Me falta alguma certeza.As mãos cheias
o silêncio dos olhos inclinados ao mar.

Recolho migalhas de pão
para ofertar aos peregrinos do instante,

é meia noite
a poesia me visita com os olhos líquidos

fala dos braços navegando
dos passos teimando uma praia distante.

Inclino-me sobre a palavra
pássaros bicam o meu coração

a melancolia sorve meus olhos
tenho arames afinando meu canto.

o silêncio absorve minha voz
tento chegar o rosto a janela 

aconchegar o sussurro do vento
contemplar a paisagem além da montanha.

As paisagens, extensões do meu quarto
oceanos sugam o meu peito 

madrugada envolve as cordas vocais.
Há dias o sono não aquece meu pranto

sinto estar no mesmo tempo
em que os mortos regressam a mesa da vida

para celebrar o indizível,
junto a eles canto o exílio dos homens.

A solidão é bela, sublime
um movimento para o encontro.

Em meus olhos as aves extinguiram  vôo
estou tentando pertencer a algo.

Adormeço no colo da esperança:
Que a palavra me ajude a naufragar.

Sandrio Cândido

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Poemas de Dade Amorim




 Os párias


Os anjos da cidade vêm da esquina
de praças e barrancos
surgem do chão de surpresa
já sem asas
estão nos botequins
dormem nos bancos de praça
nas calçadas.

Sofrem de fome em bandos
sem ter aonde levar
seu cheiro
sua revolta.

Os anjos da cidade nos sitiam
deuses sem brilho
feitos de folhas secas e unhas.
São flébeis e nos avisam
com os olhos fugidios
:
o inimigo vem de qualquer lado.

Às vezes velam os que
por suas mãos
restaram mortos
e riem
diante desses anjos desfolhados.

Um anjo desossado ingressa às vezes
no sangue de quem passa
e deita em suas horas e adormece
de um sono escuro opaco de lembranças.

Os párias da cidade todo dia
geram outros anjos feitos
de fumo e cocaína e cola e craque.





Maria

 

 

Maria está diferente
pensa em flores
e elas chegam
ouve vozes
ri atoa.

O que acontece com ela
é uma voz no nextel
e Maria perde o freio.

O dia vem
de repente
antes do sol acordar
porque o poder de Maria
ilumina o mundo em volta.


 

Em família

 

Os pais os olhavam
tristes
como quem sofre
dores muito antigas
sonhos pisados
e um atavismo de culpas
sem remédio.

Na hora mais quente do dia
a casa em desalinho
longe do pai
a mãe lavando a louça
deixaram os brinquedos no porão
tentando salvar a vida
mais para lá do portão.

Levavam
olhos de choro
as dores já tão antigas
dentro da pele.







domingo, 9 de dezembro de 2012

Dois poemas de Adrianna Coelho


GESTOS


os poemas que ficaram
nos meus olhos
ainda ardem

esfrego a poesia
com a palavra
"choro"



CONTEXTO



recita tuas águas
e brasas
e te condenso

nos meandros
contornos e entremeios
te margeio

em teus vales
horizontes e montanhas
desaprumo

só em teus ventos
me refaço
duna



Poemas de Adrianna Coelho disponíveis no blog Metamorfraseando

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Poemas de Jayme Ferreira Bueno


TERRA NATAL

Não se nasce em um lugar.
Nascemos na vida.

O lugar de nascimento
Não é apenas uma paisagem na memória.

São os pais,
os irmãos.
São pessoas,
amigos.

É a infância,
o despertar para os sonhos,
pequenas e grandes conquistas:
as primeiras lições de amor e de sofrimento.



A GRANDE NOITE

A grande noite se aproxima,
Árvores, luzes,
Vinho, pão, mel, frutas maduras.
Aguarda-se uma visita.
Ouvem-se cânticos de louvor.
A grande noite se aproxima.

A noite chega plena de mistério,
Acendem-se luzes,
Estouram fogos,
O aguardado chega
E com ele a paz.
A noite chega plena de mistério.

É madrugada!
Novo dia raiará.
O brilho do sol ofuscará os olhos dos recém-acordados,
Mas o mistério da noite
Continuará a embalar os espíritos,
Que, agora, repousam em paz
E em harmonia com o universo.



O PRINCÍPIO E O FIM

Um pequeno lago azul
Com águas calmas
E um barco com todos os sonhos
Suavemente a navegar

Um imenso oceano escuro
Com águas encapeladas
E um cargueiro com tudo da vida
Abruptamente a naufragar