PÁGINAS

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"apalpar a noite é um começo de escrita"




Um terror de cães com a rua dobrada (o vento a arder uma representação violenta da passagem), recado posto em meio à brancura da geladeira, lembro dum grito colorido de
sirene: apalpar a noite é um começo de escrita, falávamos disso, os nossos labirintos,

e dissolvendo o açúcar
de cada angústia no nosso demônio bêbado: transávamos o desejo se inventando, as infâncias comedoras de éter. Periferias,

tiro, bala, bilhetes como corpos transpirantes para drogar os olhos, e após as linhas, no fundo sanguíneo de paredes úmidas.

Redigidos à mão nervosa, solucionaram encontros sob uma janela de fundos falsos. Olha lá fora, na esquina dos versos envelhecidos,
onde marcham são já os que não deveriam passar, temperados pela escuridão (sobre eles, idealistas conjecturarão a maldade), repara que

tremeluz em cada a feição própria do
abismo.

(Deve recordar que chorei, derradeiro, o hino socialista que cantou seu sorriso.)

*


Poema de Viktor Schuldtt. Leia mais do autor em: http://desterritoriosilencios.blogspot.com.br

sábado, 22 de junho de 2013

As primeiras dores

Prosa de Kleber Lima


Estou batendo minha cabeça contra a parede.
O sangue já deve ter tomado boa parte do rosto, descido pelos ombros e arruinado toda a estampa da camisa. Adquiri este hábito horrível. Acontece que todas as vezes que o faço, é justamente isso que busco: abrir minha cabeça, deixar que algo lá dentro escape, se derrame.
Na maioria das vezes, é claro, a cabeça bate forte demais. Aí, as escoriações à mostra logo denunciam alguma involuntária desatenção, pois ninguém acreditaria que você chocou deliberadamente a cabeça tentando, com algum desespero, esquecer algo, apagar uma imagem, reorganizar sobre o areal da mente os frágeis montantes de areia que se formam por algum ocaso e que ficam espalhados ilogicamente. Afinal, e isso é bem sabido, às vezes não se quer pensar em muita coisa, mas como entupidos os habituais corredores de onde surgem essas imagens, você não pode escoá-las. O pior não é isso. O pior é que elas atraem associações irracionais e perigosas. Cruzam-se, criam pontes entre si, à revelia mesmo da minha sanidade, e fazem-me pisar em paisagens rarefeitas, de figuras inumanas, onde tudo se desfigura e onde os seres se comunicam através de peripécias silenciosas.
Fico com esse trânsito na cabeça, congestionado. Minha mãe é a que mais se preocupa, naturalmente. Minha sorte é que a porta do quarto tem chave, assim me tranco e permaneço o tempo que for preciso, lançando sorte de toda minha habilidade de me camuflar quando tenho que ir até outro cômodo da casa, até o inchaço diminuir ou desaparecer.
Acontece que já não suporto isto. Desta vez bati forte a cabeça, forte demais. Imediatamente fiquei tonto. Tudo ao redor se tornou uma grande vertigem. Contudo, enfim, sinto um alívio. Sabe aquele momento em que você sente as ideias fluírem? Que lucidez há neste fechar de olhos!

*


Kleber Lima é bibliotecário e reside em Fortaleza - CE.
Leia mais do autor na revista Mallarmargens.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Poética Profunda de Sant Anna

(Fotografia: Cris de Souza)


Suíte para uma pisciana numa indisfarçável  baía

I
Acalenta, sim. 
Acalenta. 

Quando disfarço, 
é para dizer o contrário 
como se 
me arrancassem a língua, 

mas qualquer outra coisa 
que o diga 
poderia atrapalhar 
a separação do joio do trigo, 

e não seria para menos 
se o tanto  que te falei 
ou o tanto que te pedi 
não fizesse o vento 
tão peremptório 
atrapalhando 
a conjunção das borboletas. 

Mas estamos quites. 


II
As sereias  
nunca negaram a entranha 
que não ostentam. 

Despi-las,
sempre foi 
um estranhamento. 

Sempre foi  um nexo absurdo 
no mundo oblíquo dessas sacerdotisas. 


III
Além de ti, 
a última sentença que prolato, 
entretanto,  é minha discreta mão 
singrando o vento fosco 
e morrendo infinda  no limite 
da sua baía.

(José Carlos Sant Anna)

* O autor escreve AQUI.

terça-feira, 11 de junho de 2013

"Em verdade A vida Rotina enrolada Na bobina"


TIRO DE CANHÃO CONTRA TICO-TICO

Não há nada
Que eu veja
Ao derredor
Que não seja
Muralha circular
Sem portal
Diâmetro
Minúsculo
Alicerce na terra
Cornija no céu

É certo
Que a vida
Não me prometeu
Delicatessens
Delícias
Mas
Milícias
Também não

Por que
Então
Prisão
De segurança
Máxima
Quando
Liberta
Eu não conseguiria
Caminhar
Um milímetro
De raio
Fosse
Em qualquer
Direção
Tendo por centro
Minha tenda?

A priori
Estou
Vencida


MERA POESIA DE VIDA

Jangada
Ao sabor 
Do vento:
Este
Meu conceito
De vida

Içada
A vela
Aflita
(Tecido gasto
Puído
A suplicar
Cerzido)
Vai seguindo
Singrando
Sangrando
Malgrado
Todo
E qualquer risco

(Mar revolto
Mar vivo:
Antes fosse morto)


TARDE TATUADA

No quintal 
Do Olegário
Um bem-te-vi 
Solitário
Cisma

Pensativo
Estático
Como se 
Empalhado
Fosse

Doce imagem:
Tatuagem 
Estampada
Bem no peito 
Da tarde


CINEMA

Filme Noir
Muito preto
Algum branco
Pouco cinza
Nenhuma profundidade
Assim tem sido
Em verdade
A vida
Rotina enrolada
Na bobina

Onde projetar?


*


Poemas e telas de Zélia Guardiano, retirados da sua página no facebook. A autora publicou os livros Poesia combina com tudo (2011) e Trem-bala (2012). Leia mais em seu blog: Ad Litteram - Zélia Guardiano.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

"a alma em regozijo, diluída em morfina"




Thousand yard stare
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht.
Bertold Brecht

O ouro que reveste o berço
escapa ao olho do televisor,
sem ter visto
as ruínas de toda Europa em trincheiras gangrenosas,
de algum modo vencendo a neve
pisoteada por coturnos
(que a visão panorâmica da história
redime).
Dor que passa e nada ensina,
                                      além
de qualquer morteiro ou redenção,
e o gozo de escolher
de que lado do arame farpado ser
fuzilado.



Canção do eremita

Quatro dias sem sair de casa
e o que perdi?
Carros, crânios
moídos nas madrugadas,
balões esvoaçantes
e meia dúzia de buquês
jogados no lixo

cão que foge, brinquedo que a rua
destrói
como um relógio, sem
que as horas cessem
suas transformações.
O cortejo
da vida como quem sai pra jantar
com uma pessoa estonteante
e burra.

Capa: Leonardo Mathias


Paz de espírito

Ser sábio ou tolo demais
para correr descalço sobre a
             relva reluzente
de cacos de vidro ao sol.

Transeuntes abatidos
por meteoros de ar-condicionado
e peças de titânio em chamas,
um passo na rua, outro
no eterno,
a alma em regozijo,
diluída em morfina.



Esperando estar enganado

Cadáver adiado que procria
       F. Pessoa

De cócoras à cova e um parto difícil,
abaixo
             ao fosso, o fórceps
na mão do coveiro,
e o tempo
para envelhecermos
embotados pelo hábito.

*

Adriano Scandolara (Curitiba, 1988) é poeta e tradutor. Os poemas acima são do seu livro Lira de Lixo, Editora Patuá, 2013. O autor contribui para o blog Escamandro - poesia, tradução e crítica. 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"o silêncio costurado com barbante"


Imagem: Mercedes Lorenzo


anotações sobre a cidade alheia

os telhados falam do que não conhecemos, eles falam a lín­gua dos musgos, da tinta seca, das telhas velhas: pegadas­-perdidas-de-elefante. as paredes se escoram na flacidez do tempo, preguiçosas e pacientes, acordadas pelo som coleti­vo das matracas e o movimento das ancas dos cazumbás. a obesidade da cidade é um fato; suas estrias vazam – e nelas andamos. pequenas estações em cada fiapo de cimento ou planta, sombra do que se move e não pode ser segura, presa, pisada. a cavidade lasciva da brisa se faz caminho: sessão de filmes-sonhos no horário das pálpebras fechadas: – não que­ro que os galos me avisem que está amanhecendo.

Imagem: Mercedes Lorenzo


alguém comeu minhas mortes

minha boca suja de sono no teu sonho sujo desata novelos e subtrai gengivas: gosto de deserto em prato de cerâmica, lín­gua escorregando pela geometria defasada. arapuca armada: impossível resistir ao ato de se abismar. a janela cega revela nódoas, sequelas atrás dos tijolos. o silêncio costurado com barbante faz lembrar que as raízes cortadas fazem falta: – onde furtaram meu quase nada há um incêndio infinito e asas longe do tronco.

*

Poemas de Demetrios Galvão do livro Insólito, disponibilizado na íntegra em: http://www.corsario.art.br//index.php/corsario/editora


Imagens de Mercedes Lorenzo, retiradas do site:
http://www.mercedeslorenzo.com/index.html

terça-feira, 21 de maio de 2013

TRÊS POEMAS DE JOÃO MANUEL SIMÕES


PENÉLOPE

Enquanto a noite cresce e a lua brilha,
faço e desfaço, sem descanso, a teia,
no tear infinito da quimera.
Ulisses há de vir da sua ilha.
Mas enquanto não vem, minha odisseia
é ir tecendo, em pranto, a longa espera.


SANCTA POESIS

Luz que se tece
de sombra
e claridade.
Sua textura,
só quem a acende
sabe.
 
Flor no silêncio.
Seu colorido,
só quem a colhe
enxerga.

Explosão irisada
de metáforas.
O seu fascínio,
só quem a deflagra
entende.


Cruz implacável sobre cujos braços
me prego, sangro, morro
e ressuscito
para a vida efêmera.

 DIÁLOGO COMIGO

Falo comigo, falo.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.

O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.

Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.

Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.

Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.

(João Manuel Simões, poeta e contista, nasceu em Portugal e vive em Curitiba/PR).

 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Adriana Godoy


quando vim ontem pela rua

quando vim ontem pela rua vi um cachorro morto. fiquei olhando para ele imaginando como teria sido a sua vida de cachorro. então lembrei da minha vida e vi que não era muito diferente. me vi morta com a cabeça no passeio e o resto do corpo na rua. imaginei outro cachorro me cheirando com o focinho frio e o bafo quente. vi que ele saiu correndo, como quem corre do diabo. 
 
Arte: Rafael Godoy

feridas custam a secar

tenho em mim o resto de meus dias
e não sei de que são feitos
sei que horas são quando me chamam pra almoçar
ou qualquer outra besteira cotidiana
a não ser quando incendeia a lua
me importo menos com as coisas que me atormentavam tanto
e desisto de pular a janela
vou acumulando sorrisos e caretas
 feridas custam a secar
lobos passam silenciosos e com medo
percebo só as suas sombras
e isso me basta
um drink, amor?
para celebrar o vazio
o que importa
se os degraus são altos e não posso alcançá-los?
enojam-me as tragédias humanas
e sou uma delas
 
Arte: Rafael Godoy

então ele disse que era deus

então ele disse que era deus
já que a partícula de deus era ele
eu disse que também era
mas quando percebi estava conversando com o diabo
que também era a partícula de deus
e pensei em pulgas e carrapatos
nas baratas e camaleões
nos rios e oceanos e nas águas de chuva
e pensei como um vírus que é também partícula de deus mata
e pensei nos homens que matam e são cruéis
e nessa humanidade quase perdida
me lembrei das melhores músicas
dos melhores filmes livros e da poesia
pensei nos amigos nos filhos
na mãe no pai na lua de ontem
e vi que o dia era azul um dia de inverno azul
e os gatos estavam ali no sol
e vi que nada vai fazer diferença
o dia segue bonito ou desesperado
e vou pra janela fumar um pedaço de deus ou do diabo

*

Leia mais de Adriana Godoy em seu blog "Voz".