PÁGINAS

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Sem razão



A alma é música que às vezes entorta e deixa cair o ritmo janela abaixo
é lago no escuro trêmulo do quarto à procura de luzes
e luz sempre em busca.

Ama é deserto pleno e fala de oásis que não viu.

Alma é brinquedo quebrado e ainda assim
amado pela criança que imagina seu brinquedo todo inteiro
por um milagre em que só mesmo as crianças acreditam.

Milagre é brincar de ser grande sendo grande
e misturar a música da alma na longa espera das pessoas.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A EXTRAORDINÁRIA AVENTURA ACONTECIDA A VLADÍMIR MAIACOVSKI, CERTO VERÃO, NO CAMPO.

Puchkino, Monte Akula, aldeia de Rumiantzov,
a 27 verstas de Iagroslav por estrada de ferro

..............
Cem sóis flamejavam no horizonte.
O pleno verão se despejava em julho.
Um tremendo calor boiava no ar
e isto aconteceu no campo.
Puchkino tem às costas
a corcunda do Monte Akula
enquanto a seus pés
uma aldeia retorce a casca enrugada
de seus telhados.
Atrás da aldeia havia
um buraco
onde todos os dias
lento e majestoso
o sol se escondia.
E a cada manhã
dali se levantava
rubro como sempre
para inundar o mundo.
Dia após dia
aquilo se repetia
até que acabou por me irritar
terrivelmente.
Enfim, num acesso de cólera
capaz de tudo abalar de medo,
gritei direto à cara do sol:
“Ei tu! Desce daí!
Sai dessa cova piolhenta!”
Gritei-lhe nas bochechas:
“Tu, pedaço de vagabundo
vives deitado num berço de nuvens
enquanto eu tenho que ficar
aqui sentado
seja inverno ou verão
a desenhar cartazes”.
Bradei-lhe nas barbas:
“Espera!
Escuta, seu carranca de ouro,
por que, em vez de flanar por aí,
não vens me fazer uma visitinha?”

Que fiz eu!
Agora estou frito!
Eis que
em minha direção
o sol em pessoa
avança.
Suas pernas de luz
a largos passos
marcham sobre os campos.
Fingindo não estar assustado
ensaio a retirada.
Seus olhos agora
atingem o jardim.
Já o atravessam agora.
Através das janelas,
portas,
frestas,
penetra a massa solar.
E logo ao entrar,
recobrando o fôlego, diz
numa voz de baixo-profundo:
“Pela primeira vez
desde a criação do mundo
suspendi minha função.
Tu me convidaste?
Pois então, poeta,
tomemos o chá.
E não dispenso a geléia!”
Olhos lacrimejantes –
Eu estava louco de calor –
Apontei-lhe o samovar:
“Bem, queira sentar-se
Meu astro!”
Ah! que diabo me fez soltar
Aqueles insultos ao sol!
Encabulado
sentei-me na ponta da cadeira
com medo do que pudesse acontecer.
Mas do sol fluía
uma estranha, serena luz
e dentro em pouco
já à vontade
os dois nos pusemos a conversar.
Falei-lhe de coisa e loisa
e de como a Rosta me arrasava.
Disse-me então o sol:
“Não te aflijas tanto.
Faze tudo o que te cabe.
Pensas, por acaso,
que pra mim é fácil
isso de iluminar?
Experimenta e verás!
Mas, visto que assumi
o encargo de dar luz à terra,
pois então ilumino
o melhor que posso!”
E assim charlamos
Até o escurecer...
perdão, até o momento
em que antes era noite.
Pois que espécie de escuridão
pode existir
quando o sol está presente?
Já agora, íntimos um do outro,
nos tuteamos familiarmente.
Já agora, amigavelmente,
dou-lhe tapinhas nas costas.
Então disse o sol:
“Bem, cá estamos, meu velho.
Tu e eu formamos uma dupla.
Voemos, poeta,
à altura das águias.
Cantemos
Para espantar as trevas do mundo.
Eu derramo luz
e tu outro tanto fazes
esparzindo teus versos”.
O muro das sombras,
prisão das noites,
tombou
ao impacto gêmeo
dos canhões solares.
Feixes de luz e versos
brilhei quanto puderdes!
Se o outro se fadiga
e a noite pretende espichar
sua estúpida cabeça sonolenta
então compete a mim
erguer-me e brilher
para que de novo ressoe
o carrilhão do dia.
Iluminar sempre
por toda parte,
até o último alento
iluminar!
O resto não importa.
Tal é o meu lema,
igual ao do sol.

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Antologia poética
Vladímir Maiakovski
Editora Max Limonad - Pgs. 133 - 136

sábado, 29 de junho de 2013

Vivendo Marc Chagall






Nada mais natural
que esse casal flutuante.
As asas do amor nunca são vistas.

Enquanto os peixes cruzam
as águas de seus rios
e o violinista incorpora a ave colorida,
vem uma folha de papel do alto da ponte.
Logo o amado atende
e eles conhecem o toque
para o qual nasceram.

Aves e músicos
reses e cortejos
atendem ao violino do homem solitário.
O mundo se explica enfim
do modo inexplicável dos amantes
e a pomba libertada
colore o céu
e as cidades em seu voo.




Vigília

 

 

O que resta de mim no fim do dia
são desenhos a têmpera
a construção desfeita
e a que renasce no mundo escuro.

O tépido e o lembrado
em traços diluídos de uma tinta
extraída do mar.

Linha desfeita em águas de vigília
na superfície do quarto
campo e guerra.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"apalpar a noite é um começo de escrita"




Um terror de cães com a rua dobrada (o vento a arder uma representação violenta da passagem), recado posto em meio à brancura da geladeira, lembro dum grito colorido de
sirene: apalpar a noite é um começo de escrita, falávamos disso, os nossos labirintos,

e dissolvendo o açúcar
de cada angústia no nosso demônio bêbado: transávamos o desejo se inventando, as infâncias comedoras de éter. Periferias,

tiro, bala, bilhetes como corpos transpirantes para drogar os olhos, e após as linhas, no fundo sanguíneo de paredes úmidas.

Redigidos à mão nervosa, solucionaram encontros sob uma janela de fundos falsos. Olha lá fora, na esquina dos versos envelhecidos,
onde marcham são já os que não deveriam passar, temperados pela escuridão (sobre eles, idealistas conjecturarão a maldade), repara que

tremeluz em cada a feição própria do
abismo.

(Deve recordar que chorei, derradeiro, o hino socialista que cantou seu sorriso.)

*


Poema de Viktor Schuldtt. Leia mais do autor em: http://desterritoriosilencios.blogspot.com.br