Anjos, inventem a tesoura de abrir veias, palavras escorrendo como sangria desatada, o fluxo, porque sangue parado é veneno, veneno de palavras que vão cavando fundo seus lugares, suas cicatrizes-sentimentos, porque alma é corpo, corpo de sangue e palavras, na alma calada por espinhospalavras o corpo se fecha, um labirinto de arame farpado fechado sobre si mesmo, cuja saída, ilusória, é o centro, o centro onde estão adormecidasdespertas as palavras sujas de sanguebílis amarela, sanguebílis negra, a terra infértil que é um lodaçal, um paradoxo de morte e vida, vida cega tal a morte, persistente vida, palavras são organismos que se arrastam, mastigam a alma por dentro, palavras têm fome, anjos telepatas, inventem instrumentos cirúrgicos estranhos, andem com flores agarradas no coração, conheçam o sofrimento com a precisão de quem também vê o lodo de perto, o lodo da vidamorte, que as palavras sangrem, caiam no chão, o destino delas não me interessa, anjos, venham com preciosos instrumentos de observação, lupas pra vermos em escala reduzida e intensa as florações das luzes de Brasília, quando a luz bate no olho e das pálpebras brotem pétalas translúcidas-vermelhas e o silêncio multiplique encantos.
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Poema do "Livro de Orações", de Daniel Faria. Leia mais do autor na revista Mallarmargens e no blog Língua Epistolar.