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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Mulheres líquidas II

Imagem: Yan


A mulher quer o amor
como resgate
de si

arqueia-se com o empuxo

o homem deixa solto
o molinete

indefinidos metros de fio
invisível
enrolam-se em torno da mulher
quando a imagem dela
o hipnotiza, só

enquanto ela for mistério

depois algo a puxa para baixo

o homem deixa-a escapar
entre os dedos rijos

o fio torna-se espessa corda
comprimindo-lhe o ventre

dentro dela
algo é sensivelmente leve
ainda assim, afunda-a
cheio de ar


(Lara Amaral)


Leia os outros poemas da série "Mulheres líquidas": I e III. 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Eu não creio em vida após a arte

1.





2. Suspensão


As palavras que estão
no ar
que escolheram

a altitude aguda
para fugir das meras
junções de letras

Do alto selecionam

O ponto certo de despencar
não é cego

Levam em conta o vento
o tempo que indisposto para
de vagar

Como um suicida
que calcula a altura

não pensa, já é:
eterna suspensão

depois de certo ponto
não há mais como
                                                 não
errar





3. Algumas Pessoas 


algumas pessoas 
são
indesculpavelmente egoístas, excessivamente 
mesquinhas..

estranhas 
até o último fio de cabelo,
confusas 
e cheias até a última gota de alma.

transbordam,  solidão,
amor,
ou 
indiferença....

eu... bom, não faz  diferença alguma,
o que transborda ou não de mim,

sou melhor poeta que ser humano...

fato velho...

existo melhor em poesia,
realidade
me cansa, me castra e estraga....

... verso velho.

tenho diálogos profundos, 
com o meu silencio,

tenho diálogos profundos,
com tudo 
que há de mais raso em mim...

sou  vazia de tudo,
muito
cheia de mim...

indesculpavelmente,
poeta,
excessivamente humana.

sou melhor poeta que...

... não há de fazer diferença alguma.


4. Pérolas


das coisas breves, o peso de pés atados à pedra
que tínhamos aqueles olhos de ir ao fundo
existir entre mergulhos, querer pérolas

e como sangrássemos sem ver, permanecíamos
eu ancorada ao seu silêncio
vestida de distâncias e maresia

das coisas belas, o gozo da palavra
a morte anunciada naquele estranho dialeto
de corpos e poemas impossíveis:

eu quero morrer de amor, ele dizia
seu verso atravessado em minha garganta




1- O titulo da postagem é um verso da Daniela Delias.