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domingo, 15 de junho de 2014

"pisamos a terra calcinada e nossos ossos"



água puída
 
somos cinco sob a árvore. alguns passantes vêem um sobrado, outros um forte, mas se trata de uma árvore secular. há ernesto, que nos atravessa com seu pavor no instante da partida, enquanto nós estamos cercados pela espera de sua volta. a contar por nosso calendário, ernesto só viverá novamente quando se cumprir mais uma quina de anos. a esse tempo, pisamos a terra calcinada e nossos ossos, junto às sementes, formam um nó cego no corpo. nada pode faltar a ernesto, como a nenhum filho. não podemos revelar que achamos esse princípio de igualdade injusto. nossa mãe, com hera nas mãos, sussurra que injustiça é a privação de ernesto. privação de nos ver sem ser visto, de nos tocar sem ser tocado, de ser o único a ouvir a própria voz ecoar terra afora chamando por nós. quanto oceano, mãe, ainda nos vestirá até o pescoço? nossa mãe diz, na hora da prece, que, por nossos passos, ernesto sentirá que há chão; por nossos olhos, verá o longe — para que ele não seja, noite e dia, o dia afogado em seus pés que não viram o rio sem fundo. ernesto é a última criança que correu para o rio. a nós restaram a água puída e o seu aquário.


Imagem: Ben Zank

00:00h

descobri que sei guardar segredo.
a água inunda os batimentos cardíacos.
o olhar se esvai em cobre, potássio, cobalto
— diminuto calendário das dores que, na descida, não é tempo,
é brisa de água.
a crosta de tudo que desdiz meu nome me reveste com um corpo
mais sonoro: eco de nenhum cão.
sorvo-me — farpas, vidros, o pântano da primavera em meus pulmões secos.

sei guardar segredos que matam.


*

Textos de Luciana Marinho. Leia mais em seu blog Máquina Lírica.

domingo, 29 de dezembro de 2013

José Aloise Bahia



Paisagem deslocada | Fotografia do projeto de ocupação | Elisa Campos | Museu de Arte da Pampulha | Belo Horizonte | MG | Brasil | 2010-11

[Josealoisebahiabhzmg: Dez2013]



FELIZ ANO-NOVO

 "A única ilusão que o homem jamais perde é a esperança. O resultado é uma possível vista, com olhos bem abertos conduzindo sempre pra frente."



*****


José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor, pesquisador, ensaísta, colecionador e crítico de artes plásticas e literatura. Estudou Economia (UFMG). Graduado em Comunicação Social e pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios curtos (Belo Horizonte: Anomelivros, 2004). Primeiro lugar na Primeira Mostra de Vídeo-Poema Londrix 2012, 8º. Festival Literário de Londrina, PR, Brasil. Participa, dentre outras, das antologias O achamento de Portugal(Lisboa: Fundação Camões/Belo Horizonte: Anomelivros, 2005) e H2HORAS (São Paulo: Cronópios/Dulcinéia Catadora, 2010), dos livros Pequenos milagres e outras histórias (Belo Horizonte: Grupo Galpão, Editoras Autêntica e PUC-Minas, 2007), Folhas verdes (Belo Horizonte: Edições A Tela e o Texto, FALE/UFMG, 2008), Poemas que latem ao coração! (São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2009), Rodrigo de Souza Leão: tudo vai ficar da cor que você quiser (Rio de Janeiro: Edições Pinakotheke, 2011), Literatura Futebol Clube (Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2012) e Revista Internacional Eletrônica de Poesia Intersemiótica FFOOOM (São Paulo, Brasil: 2012). E-Mail: josealoise@gmail.com.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Metacorporificável




Na foto, o artista Chiu Yi Chih
maliciosamente submergidas em concavidades enceradas as mãos expiatórias combatem dentro daquele rosto indevassável como se a âncora dos vultos acometidos por uma febre crepuscular as expulsasse para o refúgio do ocaso a tal ponto que inflamadas pudessem se ajoelhar atrás dos tímpanos da tigresa retorcida qual noites reclinadas em fibras de anil na sua famélica raridade de desordem inaudível como se entre milhões de filamentos enfileirados cada uma pudesse se encolher ainda mais enquanto todos insípidos sabores se inseminam por debaixo das efabulações falidas sem poderem decifrar o método de involução dessas pequeníssimas terras tal a indissolubilidade do desejo de certas cadeiras agônicas em cada fenômeno epidérmico onde o ruído da inexatidão pode então se despencar em séries de vidros encarniçados ou como se na latência amplificadora se excitasse a fonética de cada borrão escultórico que parece suspender sobre a costela frágil da lua este pássaro de coração cinzelado ao mesmo tempo em que se fractura aquela ociosa mulher de espelhos fumegantes assim como seria irrefreável a sofreguidão dos nossos renascimentos quando o olho nem parece mais corresponder àquela rajada íntima de fêmures que cada vez mais vocifera por detrás dos limites improváveis

*

 
Chiu Yi Chi (Taipei, Taiwan, 1982) é mestre em Filosofia pela USP. Publicou o livro de poesia Naufrágios (Ed. Multifoco). Atua no LOZ-2962 STUDIO realizando trabalhos na intersecção híbrida de escultura, performance, vídeo e poesia. Está preparando a publicação de dois livros, Metacorporeidade (filosofia) e Philomundus e outras prosas (prosa poética). Mantém o blog: http://philomundus.blogspot.com


sábado, 21 de setembro de 2013

"O sangue entre as notas, que as mãos destilam"


Com que pedaço de memória é possível dizer tudo?

Posso tentar outra vez.
Mas a palavra hoje não me limita.
Estou em tudo e em ninguém.
Falhei. Falhei quando, juntas,
atravessamos a ilusão dos corpos,
na unidade quase possível.
O ponto máximo de realidade,
embora os sonhos queiram dizer algo:
que há um lugar aceso para o tempo
que não existe,
senão um lugar que nos pertence
na dimensão sombreada
da memória -
o que ama.
E o que ama tem a carne
dos avessos.
Não consigo tocar,
mais uma vez,
a carne da minha linguagem.
Tento; os nomes chovem
sobre meu corpo
ermo.
A palavra, manto de água,
despe serventias.
Há sempre o lado
limpo do leito
que desfere o nome
vazio.
Como um último golpe,
dois adolescentes,
o toque desesperado.
As mãos que amam,
as mãos que nunca tocaremos.
Que esbofetearam palavras de ordem
quando não fomos;
consumidos pelos anos,
atravessando o fundo.
O tempo, não mais o medo.
Com que pedaço de memória
é possível dizer tudo?
Ultrapasso a linha de chegada.
Ano após ano, de um desejo
que vai afinando como a pele.
Mas, em cada coisa escrevo
o amor: seu nome altero,
sua marca indelével,
que eu risco
neste branco
de pele.


Imagem: Sebastian Toth

  
Há uma nova contagem do tempo. A cada três e meio antigos minutos, a música recomeça. Soa como se me explicasse: o indivisível, o inimitável. Para que eu não entenda. O sol da primeira tarde. As próximas horas, cortinas a tudo. Esta solidão de pálpebras, sombras que refletem cercanias do mundo. Esperas: esferas. Tento ser o mais ágil, nos centésimos em que avanço do silêncio ao som. O fim quase inaudível. Como sempre, perco para os meus braços. Asas do incontável atraso do agora, na soma dos movimentos, das incompreensões, logo trarão o fim deste ato. Pode ser que o cansaço vença, ainda antes que o tempo se renda aos atrasos. E é só a música que tenho por parâmetro. Apenas este toque, dedos presumidos, intangível impregnado de urgências, que cobre há meia hora uma nova existência, que segue suas próprias convenções. Ocupo o sentido arbitrário aos meus sentidos, emoções a leis impostas, que eu sigo e quero seguir, como páginas de uma história. As escolhas se dão ao inevitável. Pressinto o amor que move o sol e as outras estrelas. Lamento empíreo. O sangue entre as notas, que as mãos destilam. O tema, esta rosa. Subo ao mais alto abandono. Não foi uma fuga para as minhas asas.

Na foto: Roberta Tostes Daniel

Os que suportam a ternura

Ternura é rebelião de delicados
renitentes, na maneira de sorrir
pro que convém aos tolos,
segundo os dragões do pensamento
- pirotécnicos que declaram
ares farsescos da morte
teimam apagar o fogo.

Preferiam (os delicados) morrer?
Mas já morrem, morrem mediados
na solidão do gesto,
torná-la um cumprimento
- dão-se as mãos,
enfadados de socar
o próprio estômago.


*

Poemas de Roberta Tostes Daniel. Leia mais em: Sede em frente ao mar.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Oração n. 5




Anjos, inventem a tesoura de abrir veias, palavras escorrendo como sangria desatada, o fluxo, porque sangue parado é veneno, veneno de palavras que vão cavando fundo seus lugares, suas cicatrizes-sentimentos, porque alma é corpo, corpo de sangue e palavras, na alma calada por espinhospalavras o corpo se fecha, um labirinto de arame farpado fechado sobre si mesmo, cuja saída, ilusória, é o centro, o centro onde estão adormecidasdespertas as palavras sujas de sanguebílis amarela, sanguebílis negra, a terra infértil que é um lodaçal, um paradoxo de morte e vida, vida cega tal a morte, persistente vida, palavras são organismos que se arrastam, mastigam a alma por dentro, palavras têm fome, anjos telepatas, inventem instrumentos cirúrgicos estranhos, andem com flores agarradas no coração, conheçam o sofrimento com a precisão de quem também vê o lodo de perto, o lodo da vidamorte, que as palavras sangrem, caiam no chão, o destino delas não me interessa, anjos, venham com preciosos instrumentos de observação, lupas pra vermos em escala reduzida e intensa as florações das luzes de Brasília, quando a luz bate no olho e das pálpebras brotem pétalas translúcidas-vermelhas e o silêncio multiplique encantos.

*

Poema do "Livro de Orações", de Daniel Faria. Leia mais do autor na revista Mallarmargens e no blog Língua Epistolar.

sábado, 22 de junho de 2013

As primeiras dores

Prosa de Kleber Lima


Estou batendo minha cabeça contra a parede.
O sangue já deve ter tomado boa parte do rosto, descido pelos ombros e arruinado toda a estampa da camisa. Adquiri este hábito horrível. Acontece que todas as vezes que o faço, é justamente isso que busco: abrir minha cabeça, deixar que algo lá dentro escape, se derrame.
Na maioria das vezes, é claro, a cabeça bate forte demais. Aí, as escoriações à mostra logo denunciam alguma involuntária desatenção, pois ninguém acreditaria que você chocou deliberadamente a cabeça tentando, com algum desespero, esquecer algo, apagar uma imagem, reorganizar sobre o areal da mente os frágeis montantes de areia que se formam por algum ocaso e que ficam espalhados ilogicamente. Afinal, e isso é bem sabido, às vezes não se quer pensar em muita coisa, mas como entupidos os habituais corredores de onde surgem essas imagens, você não pode escoá-las. O pior não é isso. O pior é que elas atraem associações irracionais e perigosas. Cruzam-se, criam pontes entre si, à revelia mesmo da minha sanidade, e fazem-me pisar em paisagens rarefeitas, de figuras inumanas, onde tudo se desfigura e onde os seres se comunicam através de peripécias silenciosas.
Fico com esse trânsito na cabeça, congestionado. Minha mãe é a que mais se preocupa, naturalmente. Minha sorte é que a porta do quarto tem chave, assim me tranco e permaneço o tempo que for preciso, lançando sorte de toda minha habilidade de me camuflar quando tenho que ir até outro cômodo da casa, até o inchaço diminuir ou desaparecer.
Acontece que já não suporto isto. Desta vez bati forte a cabeça, forte demais. Imediatamente fiquei tonto. Tudo ao redor se tornou uma grande vertigem. Contudo, enfim, sinto um alívio. Sabe aquele momento em que você sente as ideias fluírem? Que lucidez há neste fechar de olhos!

*


Kleber Lima é bibliotecário e reside em Fortaleza - CE.
Leia mais do autor na revista Mallarmargens.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Adriana Godoy


quando vim ontem pela rua

quando vim ontem pela rua vi um cachorro morto. fiquei olhando para ele imaginando como teria sido a sua vida de cachorro. então lembrei da minha vida e vi que não era muito diferente. me vi morta com a cabeça no passeio e o resto do corpo na rua. imaginei outro cachorro me cheirando com o focinho frio e o bafo quente. vi que ele saiu correndo, como quem corre do diabo. 
 
Arte: Rafael Godoy

feridas custam a secar

tenho em mim o resto de meus dias
e não sei de que são feitos
sei que horas são quando me chamam pra almoçar
ou qualquer outra besteira cotidiana
a não ser quando incendeia a lua
me importo menos com as coisas que me atormentavam tanto
e desisto de pular a janela
vou acumulando sorrisos e caretas
 feridas custam a secar
lobos passam silenciosos e com medo
percebo só as suas sombras
e isso me basta
um drink, amor?
para celebrar o vazio
o que importa
se os degraus são altos e não posso alcançá-los?
enojam-me as tragédias humanas
e sou uma delas
 
Arte: Rafael Godoy

então ele disse que era deus

então ele disse que era deus
já que a partícula de deus era ele
eu disse que também era
mas quando percebi estava conversando com o diabo
que também era a partícula de deus
e pensei em pulgas e carrapatos
nas baratas e camaleões
nos rios e oceanos e nas águas de chuva
e pensei como um vírus que é também partícula de deus mata
e pensei nos homens que matam e são cruéis
e nessa humanidade quase perdida
me lembrei das melhores músicas
dos melhores filmes livros e da poesia
pensei nos amigos nos filhos
na mãe no pai na lua de ontem
e vi que o dia era azul um dia de inverno azul
e os gatos estavam ali no sol
e vi que nada vai fazer diferença
o dia segue bonito ou desesperado
e vou pra janela fumar um pedaço de deus ou do diabo

*

Leia mais de Adriana Godoy em seu blog "Voz".

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A rosa negra

A rosa negra

Eu sou a rosa negra.
A rosa noturna.
Às vezes, azul de tão negra.
Às vezes, rubra de tão branca.


Eu sou a rosa negra.
A impossível rosa
sempre presente.
A potente rosa,
inatual e sensível.


Claro enigma,
pedra no caminho,
eu sou a rosa negra.
Ideal e pensável,
Imune ao tempo,
Inexistente.


Eu sou a rosa negra cultivada
no secreto jardim.
A rosa anárquica e mística.
A rosa da rosa,
acabada e pronta.




Mais do cronista e poeta Antonio Caetano