PÁGINAS

Mostrando postagens com marcador Manoel de Barros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manoel de Barros. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de outubro de 2012

POEMINHA EM LÍNGUA DE BRINCAR


Ele tinha no rosto um sonho de ave extraviada.
Falava em língua de ave e de criança. 

Sentia mais prazer de brincar com as palavras 
do que de pensar com elas.
Dispensava pensar.

Quando ia em progresso para árvore queria florear.
Gostava mais de fazer floreios com as palavras do
que de fazer ideias com elas. 


Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem
que chegar ao grau de brinquedo 
Para ser séria de rir.


Contou para a turma da roda que certa rã saltara
sobre uma frase dele
E que a frase nem arriou. 

Decerto não arriou porque tinha nenhuma 
palavra podre nela.

Nisso que o menino contava a estória da rã na frase
Entrou uma Dona de nome Lógica da Razão. 
A Dona usava bengala e salto alto. 

De ouvir o conto da rã na frase a Dona falou:
Isso é Língua de brincar e é idiotice de criança
Pois frases são letras sonhadas, não têm peso,

nem consistência de corda para aguentar uma rã 
em cima dela

Isso é língua de Raiz – continuou
É língua de Faz-de-conta
É língua de brincar! 

Mas o garoto que tinha no rosto um sonho de ave 

extraviada
Também tinha por sestro jogar pedrinhas no bom 

senso.

E jogava pedrinhas:
Disse que ainda hoje vira a nossa Tarde sentada
sobre uma lata ao modo que um bentevi sentado
na telha. 

Logo entrou a Dona Lógica da Razão e bosteou:
Mas lata não aguenta uma Tarde em cima dela, e
ademais a lata não tem espaço para caber uma
Tarde nela!
Isso é Língua de brincar
É coisa-nada. 

O menino sentenciou:
Se o Nada desaparecer a poesia acaba. 

E se internou na própria casca ao jeito que o
jabuti se interna. 



Poesia Completa/Manoel de Barros
São paulo: Leya, 2010

LIVROS INFANTIS
Poeminha em Língua de brincar [2007] - página 485


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Manoel de Barros - 95 anos

O poeta Manoel de Barros – poeta vivo – comemora seus noventa e cinco anos de idade. Eu, particularmente, sou apaixonada, gosto imensamente de sua arte de escrever e me encanta sua biografia. Costumo dizer que lendo Manoel de Barros volto à infância que não tive...

Seu livro “MANOEL DE BARROS /poesia completa” - Editora Leya, 2010 - foi um presente que me dei em março deste ano. Na dedicatória a mim mesma, escrevi:

E lia e ria

envergonhada

de felicidade –

embriagada de poesia

 

Eu simplesmente não conseguia me conter ao abrir o livro e ler “ENTRADA”.  Estava fascinada. E fascinada cheguei à última página. Já conhecia o poeta, mas era como se o lesse pela primeira vez.

Poderia aqui compartilhar alguns fragmentos ou poemas na íntegra, mas, sinceramente, tentei e não consegui escolher ou colher... Então, deixo "apenas":


Entrada - Manoel de Barros


Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz. Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.



*****


Sugestão de site: Fundação Manoel de Barros

Convído-os também à leitura  poema-homenagem  DELÍRIOS DO VERBO ou Arapucas de pegar Manoel - (ao poeta Manoel de Barros) do poeta Wender Montenegro - postado em seu blog.
.


Viva a poesia
Salve os Poetas!