PÁGINAS

Mostrando postagens com marcador crianças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crianças. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de outubro de 2012

POEMINHA EM LÍNGUA DE BRINCAR


Ele tinha no rosto um sonho de ave extraviada.
Falava em língua de ave e de criança. 

Sentia mais prazer de brincar com as palavras 
do que de pensar com elas.
Dispensava pensar.

Quando ia em progresso para árvore queria florear.
Gostava mais de fazer floreios com as palavras do
que de fazer ideias com elas. 


Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem
que chegar ao grau de brinquedo 
Para ser séria de rir.


Contou para a turma da roda que certa rã saltara
sobre uma frase dele
E que a frase nem arriou. 

Decerto não arriou porque tinha nenhuma 
palavra podre nela.

Nisso que o menino contava a estória da rã na frase
Entrou uma Dona de nome Lógica da Razão. 
A Dona usava bengala e salto alto. 

De ouvir o conto da rã na frase a Dona falou:
Isso é Língua de brincar e é idiotice de criança
Pois frases são letras sonhadas, não têm peso,

nem consistência de corda para aguentar uma rã 
em cima dela

Isso é língua de Raiz – continuou
É língua de Faz-de-conta
É língua de brincar! 

Mas o garoto que tinha no rosto um sonho de ave 

extraviada
Também tinha por sestro jogar pedrinhas no bom 

senso.

E jogava pedrinhas:
Disse que ainda hoje vira a nossa Tarde sentada
sobre uma lata ao modo que um bentevi sentado
na telha. 

Logo entrou a Dona Lógica da Razão e bosteou:
Mas lata não aguenta uma Tarde em cima dela, e
ademais a lata não tem espaço para caber uma
Tarde nela!
Isso é Língua de brincar
É coisa-nada. 

O menino sentenciou:
Se o Nada desaparecer a poesia acaba. 

E se internou na própria casca ao jeito que o
jabuti se interna. 



Poesia Completa/Manoel de Barros
São paulo: Leya, 2010

LIVROS INFANTIS
Poeminha em Língua de brincar [2007] - página 485