PÁGINAS

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

música de trabalho

Poema do livro "Casa das Máquinas", de Alexandre Guarnieri
 

 

nem sempre é terrível a música orquestrada das máquinas pesadas, sobretudo se ágil e sincopado o ritmo de todos os motores a diesel enquanto deslizam. vez por outra um solo monocórdico sobressai à percussão dos pistões, monólogo desencontrado sobre coro de vozes intercambiáveis.



nem sempre é triste mas trinca naquela liga entre o aço mais elástico e o arrasto do ferro incrustado de ferrugem rubra, engrenagem por engrenagem, até o trêmulo epicentro dessa gangrena fabril. nem sempre se repetem, nas forjas, tantas outras dessas órbitas ruidosas,



enquanto dura a jornada diurna, um barulhário, mas fora das fábricas, talvez o sono do operário solitário o reconstrua quase à integralidade, invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.



nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa, a música regulatória da vida útil (nula, reclusa) dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis vazios, ou quaisquer outros receptáculos deflagrados, quando entregam dedo à fresa, vinagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre, fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos por dispensáveis: necessário substituí-los.


*

 
Alexandre Guarnieri (Rio de Janeiro, 1974) é arte-educador habilitado em História da Arte pela UERJ, e Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Pertence ao corpo editorial da revista Mallarmargens. "Casa das Máquinas" (Editora da Palavra, RJ, 2011) é seu livro de estreia. Seu próximo livro, "Corpo de Festim", aguarda lançamento para 2014.
 


2 comentários:

Lara Amaral disse...

Enquanto me engrenava neste livro de Alexandre Guarnieri, tive a sensação de ser mais inanimada perante seus versos em perspectiva de maquinário. Isso porque, entre válvulas, engrenagens e tantos outros mecanismos, o autor hipnotiza o cotidiano estático traduzindo as falas dos seres sem voz ou de língua desconhecida. Seres que acabam sob um holofote cinematográfico, que recebem um clima de música, poesia... tudo ganha vida própria diante a ambientação criada em Casa das Máquinas.

Adriana Riess Karnal disse...

poxa. muito bom!estou faminta de poetas que ainda nao conheço e surpreendem.