PÁGINAS

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Dois poemas de Thiago Cervan




espinha de bacalhau

retirar a flanela laranja 
do corpo fragmentado de madeira
unir campânula, corpos superior & inferior
barrilete & boquiha no adágio, molto tranquilo
umedecer a palheta com a língua ágil
do stacatto & prendê-la com a borboleta prateada. 
& com o pulmão de mil fumantes crônicos
& com os dedos atrofiados pela poeira
dos fechos enferrujados da maleta
reviver com pouco brilho
o clarinete de anos atrás



*


anhangabaú

camelôs vendem dvds pornôs
enquanto travestis de um metro e noventa
& pirocas de trinta centímetros exibem-se com
o mesmo rigor dos soldados da guarda-real
britânica. god save the queen. vende-se tudo:
milho transgênico no pratinho da china,
guarda-chuvas de meteoritos e erva cidreira
de plástico & em um canto qualquer seres
amontoados tem os dorsos cobertos por caixas
de papelão com impressões metalinguísticas: frágil,
manusear com cuidado, made in brazil.
vômitos de anjos & pedrinhas q não estão no
aquário compõem o cenário da maldição da
película q não entrará para a lista dos filmes de
terror mais importantes da última década.
vagabundos em geral levam a vida como dá,
entre um biscate & uma biscate, uma boate
e um bote certeiro & os estagiários & executivos
& todos os tipos possíveis rumam às catracas
numa fila indiana do carrossel infinito q se segue
sobre o vale da sombra dos autóctones nus


*


Thiago Cervan (1985) nasceu em São Bernado/SP. Desenvolve diversos trabalhos em arte e poesia. Em 2012, publicou o livro "Sumo Bagaço", pelo selo Poesia Maloqueirista. Saiba mais sobre o autor em: http://cervan.blogspot.com.br/.

2 comentários:

Assis Freitas disse...

flagrantes que implodem o real, o cotidiano de espantos



muito bom

Tania Anjos disse...

Muito bom, mesmo!