PÁGINAS

quinta-feira, 7 de março de 2013

ABAIXO DA LINHA DE POBREZA


Zulmira Ribeiro Tavares (1930), poetisa paulistana.
 
Ora vejo a linha de pobreza no contorno irregular
dos prédios, altos, baixos, ou das pequenas casas de
autoconstrução na encosta dos morros.

A linha que mais me atinge é a reta, que vai de
um ponto a outro sem desvio. Sei que nela há
números. Quais, não sei. Ainda que não tenha cor,
peso, e tangencie o invisível, é forte. Li a propósito.

Considero a linha do horizonte a que mais se
aproxima do que imagino ser a linha de pobreza.
Da cidade, ver o horizonte é difícil, ou se apresenta
com defeito. Rememoro-o distante, no fim do mar.
Deve ser de lá que a retiram, a linha de pobreza,
com régua e compasso: para raciocínio e ação.
Pois impossível que não exista primeiro na paisagem,
material, resistente. Tem de existir, como certas
fibras arrancadas à natureza para com elas se fazer
feixes, relhos, assim como servem de enfeite as
penas de belas aves.

Verdade que ao longo da vida passaram-me diante
dos olhos gráficos estampados em folhas de
jornal. Alguns diziam respeito à linha de pobreza.
Neles, seu traçado não remetia ao limite que se
tem do mar, longe, e por vezes mesmo delineou
o contorno de ondas crespas e próximas ou, além,
de escarpas, promontórios. Puras formas da
física terrestre, impetuosas, dramáticas, tocando
o interior dos homens de modo diverso ao da
linha do horizonte - que os acalenta com o sono,
a tranquilidade ou a morte.

Abaixo da linha de pobreza não me chegam ideias.

 

 

12 comentários:

António Eduardo Lico disse...

Bela poesia.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Bem atual, pois se fala tanto da eliminação da pobreza no Brasil. O caráter social é importante em todo texto de pessoas com elevado senso de responsabilidade.
Obrigado, pelo comentário.

Tania Anjos disse...

Uma boa poesia é como um bom livro: sempre atual.

Enquanto lia, via paisagens da minha própria cidade - que é o Rio de Janeiro...

"A linha que mais me atinge é a reta, que vai de
um ponto a outro sem desvio. Sei que nela há
números. Quais, não sei. Ainda que não tenha cor,
peso, e tangencie o invisível, é forte."

Belo poema.
Abraços!

Jayme Ferreira Bueno disse...

Obrigado, Tania, por haver gostado do post. Vamos em frente...
Abraços.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Obrigado, Tania, por haver gostado do post. Vamos em frente...
Abraços.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Obrigado, Tania, por haver gostado do post. Vamos em frente...
Abraços.

António Jesus Batalha disse...

Ao passar pela net encontrei o seu blog, estive a ler algumas coisas e posso dizer que é um blog fantástico,
com um bom conteúdo, dou-lhe os meus parabéns.
Se desejar faça uma vista ao Peregrino e sevo e deixe o seu comentário.
Sou António Batalha, do Peregrino E Servo.

Jayme Ferreira Bueno disse...

O blog é da competência de Tania Anjos. Sou apenas um colaborador. Nessa qualidade, agradeço o seu comentário. Vou visitar o Peregrino e Servo.
Abraços, Jayme

Jayme Ferreira Bueno disse...

O blog é da competência de Tania Anjos. Sou apenas um colaborador. Nessa qualidade, agradeço o seu comentário. Vou visitar o Peregrino e Servo.
Abraços, Jayme

José Carlos Sant Anna disse...

Como a palavra afirma a sua capacidade criadora, deixando um poema levíssimo.
Enriquecedor o blog.
Abr.,

Lídia Borges disse...


Abaixo da linha da pobreza todas as ideias definham por subalimentação.

Um beijo

PoesiasEnamoradas disse...

"Abaixo da linha da pobreza, dormem ratos que comem do mesmo prato daquele que grita de frio debaixo do jornal e mata a fome num copo de cachaça...". Marco A. Alvarenga